segunda-feira, 28 de julho de 2008

A Humanidade da Igreja


Em Tessalonicenses 1.1, encontramos a expressão tê ekklesía thessalonikeôn en Theô patrí, kaì kyriô Iêsou Xristô, “à igreja dos tessalonicenses em Deus pai e no Senhor Jesus Cristo”, dessa forma declarando que os cidadãos da cidade de Tessalônica que estavam em Deus e em Jesus Cristo como Igreja, não deixaram de ser tessalonicenses. Ensinando-nos que quando nos unimos a Cristo não precisamos abrir mão da nossa cidadania, abandonando os nossos deveres como membros da sociedade.

A Igreja não é uma comunidade alienante, que vive apenas de contemplações, mas um povo que servindo a Cristo de acordo com as suas leis não se exclui do envolvimento em questões de sociedade. Trata-se de um povo cristão que não deixou de ser patriota, trabalhador rural, carpinteiro, advogado, pais e mães de família, mas que serve a Deus onde quer que se encontre (LIDÓRIO, 1996, p.49).

A Igreja não é retirada do mundo, pelo contrário é no mundo que ela deve exercer a sua influência purificadora na promoção da glória de Deus:

Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens.
Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus (Mt 5.14, 16).

A permanência da Igreja no mundo e a sua proclamação do evangelho possuem uma íntima relação com o conceito de senhorio de Deus sobre todas as coisas, como René Padilla (1992, p.203) expõe muito bem:

Segundo o Novo testamento, todo o mundo foi colocado sob o senhorio de Jesus Cristo. A esperança cristã se relaciona com a consumação do propósito de Deus de unir todas as coisas no céu e na terra sob o mando de Cristo como Senhor, e de libertar a humanidade do pecado e da morte em seu Reino.
É em concordância com o ensino das Escrituras que o calvinismo evita dicotomias do tipo profano-sagrado, entendendo que todas as esferas da existência estão sob o senhorio de Deus. E é tratando sobre a questão do homem em seu relacionamento com Deus que Abraham Kuyper (2003, p.34) escreve:

Esses homens e mulheres de todas as classes da sociedade e de nacionalidade foram admitidos pelo próprio Deus à comunhão com a majestade de seu ser eterno. Graças a esta obra de Deus no coração, a convicção de que o todo da vida do homem deve ser vivido como na presença divina tem se tornado o pensamento fundamental do Calvinismo. Por esta idéia decisiva, ou melhor, por este fato poderoso, ele tem se permitido ser controlado em cada departamento do seu domínio inteiro. É a partir deste pensamento-matriz que nasce o sistema de vida abrangente do Calvinismo.
Isso nos conduz ao entendimento de que fazer parte da Igreja de Cristo longe de ser alienação é compreender que “o evangelho continua sendo a proclamação de um evento que afeta a totalidade da vida humana” (PADILLA, 1992, 205). A Igreja serve a Deus no mundo e não pode omitir-se do envolvimento em quaisquer questões desta vida, pois tudo diz respeito a vontade e governo de Deus, sendo portanto alvo do evangelho; a Igreja revela os valores e a justiça do Reino de Deus ou do seu domínio, e é partindo de tal princípio que ela compreende que proclamação e ação, palavras e obras andam juntas.

A evangelização e responsabilidade social são inseparáveis. O evangelho é boa nova acerca do Reino de Deus. As boas obras, por outro lado, são os sinais do Reino para os quais fomos criados em Cristo Jesus. A palavra e a ação estão indissoluvelmente unidas na missão de Jesus e de seus apóstolos, e devemos mantê-las unidas na missão da igreja, na qual se prolonga a missão de Jesus até o final do tempo (PADILLA, 1992, p.206).
Essa presença da Igreja no mundo, que se manifesta em palavras e em obras, visa a restauração das sociedades humanas, pois a forma como a Igreja se relaciona com Deus deve se estender a sua relação com o próximo[1]. Sobre isso, as palavras de André Biéler (1970, p.21-22) são esclarecedoras:

A existência, no seio da sociedade humana, desse núcleo celular que é a comunidade dos cristãos, por pequena que seja, constitui o estímulo para a restauração social da humanidade, desde que, evidentemente essa pequena comunidade seja verdadeiramente cristã. A igreja, com sua comunidade de homens e mulheres reais que recuperam em Cristo sua humanidade, torna-se o embrião de um mundo inteiramente novo onde relações sociais, outrora pervertidas, reencontram sua natureza original.
É na comunidade da igreja, pois, na paróquia dos crentes regenerados que se irá descobrir a imagem da vida social restaurada, da sociedade como Deus a tem desejado. Imagem fragmentária, é verdade, em virtude da persistência do pecado na vida de cada cristão, mas ainda assim válida porque imagem que corresponde ao desígnio de Deus. Pela presença atuante de Cristo, as células naturais da sociedade corrupta encontrarão na igreja a vida sã para qual tinham sido concebidas.

Nos conceitos de “igreja” expostos acima, extraídos do Novo Testamento há o claro ensino da Igreja como um organismo vivo cuja origem é o próprio Deus, essa comunidade de seguidores de Cristo possui a sua manifestação visível nas diversas localidades, porém sem se limitar a elas, pois não possui fronteiras; e em cada localidade está distribuída em células básicas nos lares como uma “igreja doméstica”. A “Igreja cristã neotestamentária” mantém a sua humanidade, pois é formada por donas de casas, mães e pais de família, pessoas de diferentes classes sociais e oriundas de diversas nacionalidades. A Igreja é formada por todos aqueles que em todo lugar ou época invocam o nome do Senhor Jesus Cristo.

Em todos esses conceitos, percebemos nitidamente o ensino da “Igreja” como um povo que serve a Deus em Cristo. Também não percebemos na análise desses conceitos quaisquer distinções do tipo profano-sagrado em relação a grupos ou indivíduos na “Igreja”. E até mesmo as expressões atuais utilizadas (clero e laicato) para distinguir os membros da “Igreja” daqueles que a governam são aplicadas a todos os crentes.



[1] Para um aprofundamento maior desse tema, é importante ler a primeira palestra de Abraham Kuyper no livro Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Orientando-se Por Uma Teologia Bíblica da Igreja



Este tópico é conseqüência lógica dos anteriores, pois as ações da Igreja, sua cosmovisão (no sentido de transcender a dicotomia sagrado-profano), e o seu triunfo sobre a institucionalização devem ser pautados pelo ensino das Escrituras.
Pois se percebe que a Igreja na atualidade ou sofre influência dos movimentos de crescimento de igreja ou enfatiza de forma extrema modelos extraídos de determinados períodos da história eclesiástica. Porém tanto os modelos eclesiásticos apresentados pelos movimentos de crescimento de igreja quanto os extraídos de determinados períodos da história cristã devem ser submetidos ao exame das Escrituras.

Isso deve conduzir a defesa de uma teologia eclesiológica que seja o resultado do exame das Escrituras, pois a tradição cristã originária do protestantismo, através dos seus catecismos e confissões, sempre defendeu que nenhuma decisão na vida da Igreja deve ser tomada sem amparo no ensino das Escrituras, e que as controvérsias existentes no seio da Igreja de Cristo precisam ser resolvidas através do exame das Escrituras em suas línguas originais, é por isso que a Confissão de Westminster (2001, p.23) declara:

O Antigo Testamento em hebraico (língua original do antigo povo de Deus) e o Novo Testamento em grego (a língua mais geralmente conhecida entre as nações no tempo em que ele foi escrito), sendo inspirados imediatamente por Deus, e pelo seu singular cuidado e providência conservados puros em todos os séculos, são, por isso, autênticos, e assim em todas as controvérsias religiosas a Igreja deve apelar para eles como para um supremo tribunal; mas, não sendo essas línguas conhecidas por todo o povo de Deus, que tem direito e interesse nas Escrituras, e que deve, no temor de Deus, lê-las e estudá-las, esses livros têm de ser traduzidos nas línguas vulgares de todas as nações aonde chegarem, a fim de que a Palavra de Deus, permanecendo nelas abundantemente, adorem a Deus de modo aceitável e possuam a esperança pela paciência e conforto das Escrituras.
As questões relacionadas com a Igreja necessitam ser vistas sob a luz da Palavra de Deus, tais como: o que concebemos ser a Igreja de Cristo? Qual a sua essência e propósito? De onde deriva a sua missão e a sua apostolicidade? Quais os papéis de clérigos e leigos no cumprimento dessa missão? Qual a relação da Igreja com o mundo? Como deve se posicionar frente às perguntas que emergem da sociedade? Essas e outras questões.

A história eclesiástica nos traz uma lição belíssima que deve ser lembrada a cada nova geração de cristãos: todas as vezes que a Igreja de Cristo substituiu as Escrituras, única norma de fé e prática, por filosofias e tradições puramente humanas, ela perdeu-se de tal forma em desvios doutrinários e morais, tornando-se irreconhecível. E somente o retorno à fonte de onde retira seu alimento, as verdades das Escrituras, reconduz a Igreja ao seu rumo, como expõe Weyel (2003, p.65-66):

Uma igreja que visa ser ou tornar-se igreja apostólica não pode desembarcar da história. Contudo, precisa remar contra a correnteza, a fim de reencontrar a água pura e límpida. O retorno à fonte é possível! Ela existe! Não está ressequida nem coberta por vegetação. Foi captada em documentos das primeiras testemunhas, na Escritura do Antigo e Novo Testamentos.
A reforma do século XVI é um exemplo desse retorno à fonte, isso é reconhecido até mesmo por teólogos católicos como o padre Antônio José de Almeida (2006, p.168):

A estratégia teológica dos reformadores é clara: realizar a reforma da Igreja da época, suplantando o acúmulo de “tradições” e “traições” da Igreja de Roma por meio de um retorno à pureza originária da Igreja primitiva. A reforma é um “retorno à forma primigênia” da Igreja (reformatio).
E ainda (2006, p.169):

Era, portanto, de esperar que os reformadores apelassem somente à Escritura como norma para compreender a Igreja, os ministérios na Igreja, a condição dos cristãos e cristãs. De fato, os reformadores – isso vale para o inglês Wyclif (ca. 1330-1384), o boêmio Hus (ca. 1370-1415), os suíços H. Zwingli (1484-1531) e J. Calvino (1509-1564) e especialmente o alemão M. Lutero (1483-1546) – e seus precursores, não necessariamente heréticos, – pense-se, por exemplo, sem, todavia, nivelá-los, em Marsílio de Pádua, Guilherme de Ockham, Pedro de Ailly, Jean Gerson, e na Devotio moderna – empalmaram a teoria da absoluta auto-suficiência da Escritura, negando o valor vinculador da tradição da Igreja e do seu magistério, ou seja, toda mediação da Igreja na transmissão e interpretação da revelação: um biblicismo integral, absoluto e individualista.
Portanto concluímos que o modelo proposto pela reforma, ou seja, as Escrituras como fonte de onde se deve extrair as verdades que transformarão a Igreja, precisa ser seguido pela Igreja hoje. Pois a reforma apontou alguns dos problemas existentes na Igreja da sua época e buscou a solução para eles nas páginas da Escritura. Mas deve-se reconhecer que a reforma não trouxe todas as respostas, deixando questões a serem resolvidas pela Igreja de hoje e além dessas há também as questões hodiernas com as quais a Igreja necessita lidar. E ambas as questões, as do passado e as atuais, só serão respondidas satisfatoriamente pelas Escrituras.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Triunfando Sobre A Institucionalização

Uma realidade contra a qual a Igreja sempre estará em conflito é a da institucionalização. Pois se trata de algo que ocorre naturalmente com qualquer grupo de pessoas que se reúnem em torno de objetivos. Pois o ato de congregar indivíduos mais cedo ou mais tarde exigirá a instalação de uma estrutura organizacional. E na medida em que essa estrutura for se tornando cada vez mais sólida com o transcorrer do tempo, tornar-se-á cada vez mais impessoal. Com o tempo a organização torna-se cada vez maior, gerando uma hierarquia de liderança distanciada dos que são liderados, agravando, desse modo, os problemas de comunicação entre líderes e liderados numa relação de cima para baixo e de baixo para cima. Isso faz com que as pessoas envoltas na estrutura organizacional se sintam sem importância para a organização.

A institucionalização confere maior valor à organização (a forma, estrutura) do que as pessoas que a constituem, os indivíduos são vistos como engrenagens de uma máquina que faz com que a organização funcione. Neste ponto, a estrutura adquire maior importância do que os objetivos que a originaram. Prédios, regimentos internos, normas (mesmo as que já perderam a sua razão de ser) se tornam mais importantes que as pessoas. A burocracia assume o governo numa estrutura rígida e inflexível, não deixando espaço para criatividade. E para sobreviver nesse tipo de estrutura fria e impessoal, os indivíduos desenvolvem interesses particulares dentro da organização, originando uma competição entre pessoas e partidos que vão se formando.
A conseqüência natural de tudo isso é que as pessoas envolvidas nesse contexto são tomadas por um estado de desânimo, não encontrando razão para atuar na organização como faziam no início, tornam-se abatidas e passam a criticar a organização e as outras pessoas inseridas nela, principalmente os seus líderes.

Essas transformações oriundas do processo de institucionalização podem ser observadas na Igreja no desenvolver da sua história. Por exemplo, no século XVI, os cristãos inconformados com as estruturas ímpias e corruptas da Igreja Romana institucionalizada, clamavam por uma reforma que transformasse esse estado de coisas. Esse clamor por reforma é um fato histórico reconhecido até mesmo por católicos como o Padre Antônio José de Almeida (2006, p.167) que em seu livro Leigos em quê? : uma abordagem histórica escreve: “Nos últimos séculos da Idade Média, de todos os lados – de simples fiéis e eclesiásticos, de escritores ilustres e professores universitários, de santos e hereges –, ergue-se um forte clamor em prol de uma reforma”.

Enfim, a reforma ocorreu, porém tendo transcorrido alguns anos, comunidades eclesiásticas oriundas do movimento de Reforma mergulham num estado de apatia e enrijecimento, numa ortodoxia estéril, acabando por ocasionar o surgimento de movimentos periféricos como o pietista (no contexto da Igreja Luterana) e o puritano (nos círculos reformados) que atuam em prol de um retorno àquela vitalidade característica da Igreja que vive segundo os padrões das Escrituras.

De modo semelhante, é perceptível na Igreja hodierna descontentamentos ocasionados por processos de institucionalização, principalmente nas Igrejas Históricas, que naturalmente manifestam forte apego as suas estruturas, porém em muitas ocasiões sem saber distinguir entre o essencial e o acessório[1], seguindo regimentos de forma inflexível, atribuindo-lhes cause que canonicidade. Nessas denominações, adquire êxito em seus empreendimentos eclesiásticos quem obtiver maior domínio da legislação da igreja. O perigo disso é que nessas circunstâncias ninguém pára com o propósito de buscar orientação divina e para discernir a vontade de Deus em certos acontecimentos. Portanto, correndo o risco de rejeitar as obras de Deus por não saber distingui-las, como os judeus fizeram com Jesus. O Filho de Deus estava diante deles, operando maravilhas perante seus olhos, mas mesmo assim sofreu ameaça de apedrejamento (Jo 10. 31, 32), levando Jesus a dizer-lhes: “Se não faço as obras de meu Pai, não acrediteis em mim. Mas se as faço, e não credes em mim, crede nas obras, para que possais saber e compreender que o Pai está em mim, e eu nele”.

Da forma como o Novo Testamento conceitua a Igreja e apresenta o seu ministério, pode-se extrair orientações preciosas para a Igreja de hoje que sofre as ameaças da institucionalização. O Novo Testamento expõe com clareza que a Igreja não surgiu como conseqüência do planejamento humano, da mesma forma que surge um partido político ou uma empresa, mas a Igreja é oriunda de Deus e lhe pertence. E é da sua origem divina que a Igreja concebe o objetivo da sua existência e de tudo o que realiza neste mundo.

Abraham Kuyper (2003, p.68), apresentando o conceito calvinista da Igreja de Cristo principalmente no que se relaciona com a sua essência, esclarece:

Para o calvinista, a Igreja em sua essência é um organismo espiritual, incluindo céu e terra, mas na atualidade tendo seu centro e o ponto de partida para sua ação, não sobre a terra, mas no céu. Isto deve ser entendido assim: Deus criou o Cosmo geocentricamente, isto é, ele colocou o centro espiritual deste universo em nosso planeta e produziu todas as divisões dos reinos da natureza sobre esta terra, para culminar no homem, a quem, como portador de sua imagem, ele chamou para consagrar o Cosmo para sua glória.
Kuyper (2003, p.69) entende que o calvinismo concebe a essência da Igreja como celestial e não terrena:

Na Idade Média, a Igreja perdeu mais e mais a visão desse caráter celestial, – tornando-se mundana em sua natureza. O Santuário novamente foi trazido de volta para a terra, o altar foi reconstruído com pedras e uma hierarquia sacerdotal se reconstituiu para a ministração do altar. A seguir, certamente, foi necessário renovar o sacrifício tangível na terra e isto finalmente levou a igreja a criar a oferta sem sangue da Missa. Então, o Calvinismo se opôs contra tudo isso, não para contender em princípio contra o sacerdócio ou contra o altar como tal, ou contra o sacrifício em si, porque o ofício de sacerdote não pode perecer e todos que conhecem o fato do pecado compreendem em seu próprio coração a absoluta necessidade de um sacrifício propiciatório; mas para livrar-se de toda esta parafernália mundana e para chamar os crentes a erguerem seus olhos novamente para cima, para o verdadeiro santuário, onde Cristo, nosso único sacerdote, ministra no único e verdadeiro altar. A batalha foi travada não contra o sacerdotium, mas contra o sacerdotalismo[2], e somente Calvino sustentou esta batalha até o fim com completa resistência.
Do mesmo modo que a essência da Igreja, para Kuyper (2003, p.74), o calvinismo compreende o propósito da Igreja como celestial: “mas ainda, também, sobre a terra, a Igreja existe simplesmente por causa de Deus”.

Nessa origem divina ou celestial, está o poder renovador para que a Igreja através do tempo não se perca nos processos de institucionalização. Da sua essência e propósito celestiais, a Igreja deve extrair discernimento para orientar as suas ações, tanto em questões internas de governo como na concepção dos ministérios de clérigos e leigos no seu seio, compreendendo que ambos (clérigos e leigos) são apresentados nas Escrituras como iguais no serviço e devem ser definidos como servos.

Os luteranos e os episcopais reconstituíram um tipo de altar sobre a terra: somente o Calvinismo ousou colocá-lo inteiramente longe. Consequentemente, entre os episcopais o sacerdócio terreno foi mantido até mesmo na forma de uma hierarquia; nas terras luteranas o soberano tornou-se o summus episcopus e a divisão de classes eclesiásticas foi mantida; mas o Calvinismo proclamou a absoluta igualdade de todos que estão engajados no serviço da igreja e recusou atribuir a seus líderes e oficiais qualquer outro caráter senão aquele de Ministros (isto é, servos). Aquilo que, sob a sombra da dispensação do Antigo Testamento, fornecia instrução intuitiva pelos tipos e símbolos, agora que os tipos estavam cumpridos, tinha se tornado para Calvino um detrimento para glória de Cristo e rebaixava a natureza celestial da Igreja. Portanto, o Calvinismo não poderia descansar até que o ouropel mundano tivesse deixado de encantar e atrair os olhos. Somente quando o último resquício do fermento sacerdotal tiver sido eliminado poderá Igreja sobre a terra novamente torna-se o pátio exterior, do qual os crentes poderão olhar para cima e para frente para o verdadeiro santuário do Deus vivo no céu (KUYPER, 2003, p.69-70).
Autor: Alexandre de Jesus dos Prazeres.

[1] Acessório: secundário, que acompanha o principal, servindo-lhe de alguma forma, ainda que não lhe seja parte integrante.
[2] Sacerdotalismo é a doutrina segundo a qual o sacerdote oferece sacrifício na Eucaristia.

Transcendendo Dicotomias do Tipo Sagrado-Profano


Antes que qualquer comentário sobre a realidade da Igreja seja realizado, reconhecemos a necessidade de uma apresentação dos conceitos de “sagrado” e “profano” para fins de clareza na exposição do assunto.

Os conceitos de “sagrado” e “profano” costumam ser expostos juntos nas obras que realizam alguma abordagem sobre eles. Pois se trata de conceitos antitéticos e ao mesmo tempo complementares, pois o conceito de “sagrado” só adquire sentido ao ser exposto em sua relação com o conceito de “profano”. Ao mesmo tempo estas são categorias opostas e excludentes: só é “sagrado” aquilo que não é “profano”.

Em termos gerais, “o sagrado” costuma ser entendido como tudo o que em relação com a divindade é extraordinário, anormal, fora do comum, especial, do outro mundo; e “o profano” como aquilo que se relaciona com o normal, comum, cotidiano, com as coisas deste mundo.
Rudolf Otto, em sua obra clássica O Sagrado, apresenta “o sagrado” em seus aspectos irracionais na noção do divino (como noção fundamental que ocorre somente no campo religioso, uma categoria que foge totalmente à apreensão conceitual) e sua relação com o racional.
O elemento racional, segundo Otto (2007, p.33), é o que o nosso entendimento apreende e interpreta, explicitando em termos de conceito:

Para toda e qualquer idéia teísta de Deus, sobretudo para a cristã, é essencial que ela defina a divindade com clareza, caracterizando-a com atributos como espírito, razão, vontade, intenção, boa vontade, onipotência, unidade da essência, consciência e similares, e que ela portanto seja pensada como correspondendo ao aspecto pessoal-racional, como o ser humano o percebe em si próprio de forma limitada e inibida. No divino, todos esses atributos são pensados como sendo “absolutos”, ou seja, como “perfeitos”. Trata-se, no caso, de conceitos claros e nítidos, acessíveis ao pensamento, à análise pensante, podendo inclusive ser definidos. Se chamarmos de racional um objeto que pode ser pensado com essa clareza conceitual, deve-se caracterizar como racional a essência da divindade descrita nesses atributos. E a religião que os reconheça e firme é, nesse sentido, uma religião racional. Somente por intermédio deles é possível “fé” como convicção com conceitos claros, à diferença do mero “sentir”.
E tendo apresentado o elemento racional, Otto (2007, p.34) expõe: "Entretanto também é preciso alertar contra um mal-entendido que levaria a uma interpretação enganosa e unilateral, ou seja, a opinião de que os atributos racionais mencionados e outros similares, a ser eventualmente acrescentados, esgotariam a essência da divindade".

Otto (2007, p.38) criou o neologismo “o numinoso”, do latim numen, deidade, com a intenção de elucidar “o sagrado” em seus aspectos irracionais. O elemento “numinoso” pode ser identificado como um princípio ativo presente na totalidade das religiões como portador da idéia do bem absoluto. Desta forma Rudolf Otto fala do sagrado como algo que denota a manifestação do numen, do poder divino, do “outro absoluto”, algo totalmente distinto de qualquer outra experiência[1], “o sagrado” como algo que foge ao natural.

Para Émile Durkheim (1989, p.68), “sagrado” e “profano” pertencem a dois mundos contrários, em torno dos quais gravita a vida religiosa:

Todas as crenças religiosas conhecidas [...] supõe uma classificação das coisas [...] em duas classes ou em dois gêneros opostos, designados [...] pelas palavras profano e sagrado. A divisão do mundo em dois domínios, compreendendo, um tudo o que é sagrado, e outro tudo o que é profano, tal é o traço distintivo do pensamento religioso [...].

Tendo exposto os conceitos de “sagrado” e “profano”, vejamos como estes se relacionam com a Igreja.

Historicamente, a Igreja Romana tem diferenciado clérigos e leigos por meio da sua teologia da “distinção de planos”, “uma teologia que se elaborou a partir da compreensão de dois universos de significação em que se exigiam dois tipos de serviços, o temporal e o espiritual” (DUARTE, 2003, p.51). Na ótica dessa teologia, o leigo por se envolver em questões do mundo, seculares, atua numa ordem temporal, profana; por sua vez os clérigos cuidam da ordem espiritual, envolvendo-se em questões eternas, portanto sagradas. Desta forma, o clero (padres, bispos, arcebispos, cardeais, etc...) são vistos como sagrados, prestando um serviço superior ao que é prestado pelos leigos no mundo.

Por sua vez, quando observamos a Igreja Protestante no Brasil[2] é possível perceber como as noções sobre “o sagrado” e “o profano” também se relacionam com ela.

O seguimento pentecostal e neo-pentecostal realizam uma interpretação da realidade em termos de “magia”, identificando os males sociais, como as doenças e pobreza, com a atuação dos poderes dos demônios. Esta visão é alimentada pela sua peculiar “teologia da prosperidade”.

A teologia da prosperidade sintetiza, com o eixo “posse da salvação”, a tradição teológica fundante e fundamental do cristianismo latino: criação-redenção. Sua estrutura poderia ser esquematizada da seguinte maneira:
a) Deus criou todas as coisas para seus filhos, para que fossem felizes possuindo esses bens originais. Essa teologia da criação é o princípio de toda a vida, o in illo tempore de onde pode fluir no hoje de cada fiel a vida feliz. Essa felicidade é um direito natural dos filhos de Deus e concretiza-se como bem-estar social e pessoal.
b) Essa posse natural foi perdida com o pecado, que tem como causa direta o demônio. Todos os males do mundo e, de modo particular, os males que impedem a felicidade podem ser vencidos.
c) Jesus pode religar as criaturas com o Criador desde que aceito pelo fiel. Seu sangue tem poder sem limites e o ato de fé, expresso no gesto da doação, é a demonstração inequívoca da entrega que exige de Deus a realização de sua promessa de felicidade (PASSOS, 2005, p.72).

E no que diz respeito a sua liderança, o seguimento pentecostal demonstra uma predileção por bispos e apóstolos autonomeados, que são apresentados como possuidores de dons extraordinários de operação de curas e milagres. Isto faz com que sejam venerados como “semideuses”, cobertos por uma auréola de perfeição e espiritualidade superiores a dos demais membros da comunidade religiosa. Esses líderes são vistos como pessoas que transcenderam o nível da espiritualidade comum para um nível elevado no qual se relacionam intimamente com Deus. E por isso Deus os dotou de extraordinárias capacidades de receber revelações diretas da parte dele[3]. Desta forma, as suas palavras são investidas de autoridade divina, ir contra elas é compreendido como sendo o mesmo que ir contra as palavras do próprio Deus.
Outro aspecto presente na Igreja Evangélica Brasileira é o de encarar os pastores como mediadores entre Deus e os homens, uma manifestação da alma católica dos evangélicos no Brasil como o Dr. Augustus Nicodemus (2007, p.2) nos esclarece:

No Catolicismo, a Igreja é mediadora entre Deus e os homens e transmite a graça divina mediante os sacramentos, as indulgências, as orações. Os sacerdotes católicos são vistos como aqueles através de quem essa graça é concedida, pois são eles que, com as suas palavras, transformam na Missa o pão e o vinho no corpo e no sangue de Cristo; que aplicam a água benta no batismo para remissão de pecados; que ouvem a confissão do povo e pronunciam o perdão de pecados. Essa mentalidade de mediação humana passou para os evangélicos, com poucas mudanças. Até nas igrejas chamadas históricas, os crentes brasileiros agem como se a oração do pastor fosse mais poderosa do que a deles e como se os pastores funcionassem como mediadores entre eles e os favores divinos. Esse ranço do Catolicismo vem sendo cada vez mais explorado por setores neopentecostais do evangelicalismo, a julgar por práticas como “a oração dos 318 homens de Deus”, “prece poderosa do bispo tal”, “a oração da irmã fulana, que é profetisa”, etc.
E ainda, no protestantismo brasileiro (incluindo-se aqui as chamadas Igrejas Históricas ou Tradicionais), enfatiza-se o ministério do pastor de tal forma que, na prática, adquire o status de ministério mais importante na Igreja, ou na maioria das ocasiões o ministério do pastor torna-se o único existente, sem o qual os membros da Igreja não conseguem realizar qualquer serviço, pois a tarefa dos membros (leigos) consiste em apoiar o ministério do pastor.

O pastor, por ter sido ordenado, é visto como alguém chamado por Deus para um serviço superior ao dos demais cristãos (não ordenados). Desta forma, o serviço prestado pelo pastor num contexto religioso é visto como sagrado e o serviço dos demais cristãos, por ser realizado no mundo, é encarado como de menor valor, ou até mesmo profano. Devido a isso, mesmo que, em termos teológicos, não se reconheça o ato de ordenação como sacramento (como o sacramento da Ordem nos círculos católicos), na prática ele se reveste de características sacramentais. Pois a ordenação transfere o ordenando de uma esfera de serviço comum para uma esfera de serviço sagrado.

Porém como é possível concluir do que foi extraído do Novo Testamento e exposto neste trabalho tal distinção não encontra apoio legítimo nas Sagradas Escrituras. Pois o Novo Testamento apresenta todos os cristãos como participantes de um mesmo sacerdócio, sendo todos iguais perante Deus, distinguidos apenas pela função que cada um é chamado a exercer.
Esta foi uma das preciosas verdades trazidas á luz pela Reforma do século XVI. Lutero (2007, p.106), refutando o sacramento católico da Ordem como uma forma de dominação tirânica dos clérigos sobre os leigos, afirma o sacerdócio de todos os cristãos:

Daí, pois, vem essa detestável tirania dos clérigos com relação aos leigos. Confiam na unção corporal pela qual suas mãos são consagradas e, depois, na tonsura e na veste. Não só crêem que são mais que os leigos cristãos, que são ungidos com Espírito Santo, mas até os consideram cachorros indignos de serem enumerados juntamente com eles na Igreja[4]. Por isso atrevem-se a mandar, exigir, ameaçar, pressionar e espremer em todo sentido. Resumindo: o sacramento da Ordem foi e continua sendo uma maquinação belíssima para consolidar todas as monstruosidades que se cometem até o presente e que ainda se cometem na Igreja. Aqui desaparece a fraternidade cristã, aqui os pastores se transformam em lobos, os servos em tiranos, os eclesiásticos em mais que mundanos.
Caso se virem obrigados a admitir que nós todos somos igualmente sacerdotes, todos os que fomos batizados – como na verdade somos e que a eles apenas se confiou o ministério, mas por consenso nosso –, deveriam reconhecer simultaneamente que não têm direito algum de dominar-nos, a não ser até onde admitirmos espontaneamente. Assim diz 1 Pedro 2.9: “Vós sois raça eleita, sacerdócio real e reino sacerdotal”. Por isso somos todos sacerdotes, todos quantos somos cristãos. No entanto, os que denominamos de sacerdotes são ministros eleitos dentre nós e devem fazer tudo em nosso nome.

Lutero (2007, p.108) com lucidez percebeu que o ato de ordenação não torna um cristão superior a outro: “Fugi, pois, por meu conselho, todos os que desejais viver seguros; fugi, jovens, e não vos inicieis nessas ordens, a não ser que queirais evangelizar ou sejais capazes de crer que por esse sacramento da ordem em nada vos tornastes melhores que os leigos”.

Outra questão que pode ser apresentada como resultado do que foi exposto do Novo Testamento neste trabalho é que o chamado de Deus não se limita apenas a pastores, nem tão pouco se destina apenas a questões de natureza intimamente eclesiásticas. Mas o chamado de Deus é feito a todos os cristãos e extensivo a todas as esferas da vida humana.

Esta é outra evidência escriturística manifesta pela Reforma. Por isso, Lutero (2007, p.76) põe todos os trabalhos realizados pelos cristãos em igualdade perante Deus:

Por isso não aconselho a ninguém, mas admoesto a todos a que não ingressem em nenhuma ordem ou sacerdócio, a não ser que estejam providos da ciência que os faça compreender que as obras dos monges e sacerdotes, por sagradas e difíceis que sejam, em absoluto, em nada se distinguem, ante os olhos de Deus, das obras de um lavrador que trabalha no campo, nem de uma mulher que atende seus afazeres domésticos, mas que ante o Senhor todos são medidos por uma só fé.
E por sua vez Kuyper (2003, p.62-63), em suas palestras sobre o Calvinismo, o apresenta como expositor de uma religião abrangente que se estende a todos os aspectos da vida:

O mesmo caráter de universalidade foi reivindicado pelos calvinistas para a esfera da religião e seu círculo de influência entre os homens. Toda a criação foi suprida por Deus com uma lei imutável de sua existência. E porque Deus ordenou plenamente tais leis e ordenanças para toda a vida, o calvinista exige que toda a vida seja consagrada ao seu serviço, em estrita obediência. Portanto, Calvino abomina a religião limitada ao gabinete, à cela ou à igreja. Com o salmista, ele invoca o céu e a terra, invoca todas as pessoas e nações a dar glória a Deus.
Deus está presente em toda vida com a influência de seu poder onipresente e Todo-Poderoso e nenhuma esfera da vida humana é concebível na qual a religião não sustente suas exigências para que Deus seja louvado, para que as ordenanças de Deus sejam observadas, e que todo labora seja impregnado com sua ora em fervente e contínua oração. Onde quer que o homem possa estar, tudo quanto possa fazer, em tudo que possa aplicar sua mão – na agricultura, no comércio e na indústria –, ou sua mente, no mundo da arte e ciência, ele está, seja no que for, constantemente posicionado diante da face de Deus, está impregnado no serviço de seu Deus, deve obedecer estritamente seu Deus e, acima de tudo, deve objetivar a glória de seu Deus. Consequentemente, é impossível para um calvinista limitar a religião a um grupo em particular ou algum círculo entre os homens.

Portanto não há um só lugar em toda a existência no qual Deus seja posto de fora, pois se faz presente em todos os lugares e exige obediência e serviço de todas as suas criaturas. Todos e tudo estão perante Deus, por isso não há uma função se sequer desempenhada pelos homens que não os torne devedores a ele, todos terão que prestar contas a ele do que for realizado neste mundo, Deus é soberano Senhor da sua criação. Isso nos leva a concluir que todos os trabalhos feitos pelos homens são do interesse de Deus, então nesse sentido, todas as atividades dos homens, por se relacionarem com Deus, devem ser santas e devido a isso são sagradas.
Autor: Alexandre de Jesus dos Prazeres.

[1] O conceito apresentado por Rudolf Otto assemelha-se ao que Calvino nas Institutas expõe como “divinitatis sensus, quaedam divini numinis intelligentia” (“uma percepção da divindade, certa intelecção do numen, divino”).
[2] Ao fazer referência a Igreja Protestante no Brasil aqui neste trabalho, reconhecemos a imensa dificuldade que há em se definir protestantismo ou Igreja Evangélica no Brasil, devido ao número enorme de denominações cada uma revelando uma diversidade de crenças e práticas litúrgicas. Por isso as afirmações que fazemos são gerais.
[3] Igrejas Neo-pentecostais possuem fundadores que são tidos como possuidores de dons extraordinários cujas ordens são seguidas como se fossem as do próprio Deus, por exemplo: na Igreja Universal do Reino Deus, há a figura de Edir Macedo; na Igreja Internacional da Graça, R. R. Soares;na Igreja Deus é Amor, David Miranda; na Igreja Renascer em Cristo, o apóstolo Estevão Hernandes e a Bispa Sônia; e na Igreja Sara Nossa Terra, o Bispo Rodovalho.
[4] Esta afirmação de Lutero está relacionada com a distinção que é feita pela Igreja de Roma entre a ecclesia docens e a ecclesia audiens (Igreja docente e ouvinte), a Igreja que consiste dos que governam, ensinam e edificam e a igreja que é ensinada e governada, e que recebe os sacramentos. A igreja romana declara haver duas classes de pessoas na igreja: os clérigos, dedicados ao serviço de Deus, que constituem uma unidade composta por pessoas sagradas; e os leigos, que consistem as pessoas de todas as esferas da vida e que constituem uma classe separada. Mas “no sentido estrito da palavra, não é a ecclesia audiens que constitui a Igreja, mas, sim, a ecclesia docens. Esta participa diretamente dos gloriosos atributos da Igreja, mas aquela só indiretamente é adornada por eles” (Berkhof, 1990, p. 517).