segunda-feira, 28 de julho de 2008

A Humanidade da Igreja


Em Tessalonicenses 1.1, encontramos a expressão tê ekklesía thessalonikeôn en Theô patrí, kaì kyriô Iêsou Xristô, “à igreja dos tessalonicenses em Deus pai e no Senhor Jesus Cristo”, dessa forma declarando que os cidadãos da cidade de Tessalônica que estavam em Deus e em Jesus Cristo como Igreja, não deixaram de ser tessalonicenses. Ensinando-nos que quando nos unimos a Cristo não precisamos abrir mão da nossa cidadania, abandonando os nossos deveres como membros da sociedade.

A Igreja não é uma comunidade alienante, que vive apenas de contemplações, mas um povo que servindo a Cristo de acordo com as suas leis não se exclui do envolvimento em questões de sociedade. Trata-se de um povo cristão que não deixou de ser patriota, trabalhador rural, carpinteiro, advogado, pais e mães de família, mas que serve a Deus onde quer que se encontre (LIDÓRIO, 1996, p.49).

A Igreja não é retirada do mundo, pelo contrário é no mundo que ela deve exercer a sua influência purificadora na promoção da glória de Deus:

Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens.
Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus (Mt 5.14, 16).

A permanência da Igreja no mundo e a sua proclamação do evangelho possuem uma íntima relação com o conceito de senhorio de Deus sobre todas as coisas, como René Padilla (1992, p.203) expõe muito bem:

Segundo o Novo testamento, todo o mundo foi colocado sob o senhorio de Jesus Cristo. A esperança cristã se relaciona com a consumação do propósito de Deus de unir todas as coisas no céu e na terra sob o mando de Cristo como Senhor, e de libertar a humanidade do pecado e da morte em seu Reino.
É em concordância com o ensino das Escrituras que o calvinismo evita dicotomias do tipo profano-sagrado, entendendo que todas as esferas da existência estão sob o senhorio de Deus. E é tratando sobre a questão do homem em seu relacionamento com Deus que Abraham Kuyper (2003, p.34) escreve:

Esses homens e mulheres de todas as classes da sociedade e de nacionalidade foram admitidos pelo próprio Deus à comunhão com a majestade de seu ser eterno. Graças a esta obra de Deus no coração, a convicção de que o todo da vida do homem deve ser vivido como na presença divina tem se tornado o pensamento fundamental do Calvinismo. Por esta idéia decisiva, ou melhor, por este fato poderoso, ele tem se permitido ser controlado em cada departamento do seu domínio inteiro. É a partir deste pensamento-matriz que nasce o sistema de vida abrangente do Calvinismo.
Isso nos conduz ao entendimento de que fazer parte da Igreja de Cristo longe de ser alienação é compreender que “o evangelho continua sendo a proclamação de um evento que afeta a totalidade da vida humana” (PADILLA, 1992, 205). A Igreja serve a Deus no mundo e não pode omitir-se do envolvimento em quaisquer questões desta vida, pois tudo diz respeito a vontade e governo de Deus, sendo portanto alvo do evangelho; a Igreja revela os valores e a justiça do Reino de Deus ou do seu domínio, e é partindo de tal princípio que ela compreende que proclamação e ação, palavras e obras andam juntas.

A evangelização e responsabilidade social são inseparáveis. O evangelho é boa nova acerca do Reino de Deus. As boas obras, por outro lado, são os sinais do Reino para os quais fomos criados em Cristo Jesus. A palavra e a ação estão indissoluvelmente unidas na missão de Jesus e de seus apóstolos, e devemos mantê-las unidas na missão da igreja, na qual se prolonga a missão de Jesus até o final do tempo (PADILLA, 1992, p.206).
Essa presença da Igreja no mundo, que se manifesta em palavras e em obras, visa a restauração das sociedades humanas, pois a forma como a Igreja se relaciona com Deus deve se estender a sua relação com o próximo[1]. Sobre isso, as palavras de André Biéler (1970, p.21-22) são esclarecedoras:

A existência, no seio da sociedade humana, desse núcleo celular que é a comunidade dos cristãos, por pequena que seja, constitui o estímulo para a restauração social da humanidade, desde que, evidentemente essa pequena comunidade seja verdadeiramente cristã. A igreja, com sua comunidade de homens e mulheres reais que recuperam em Cristo sua humanidade, torna-se o embrião de um mundo inteiramente novo onde relações sociais, outrora pervertidas, reencontram sua natureza original.
É na comunidade da igreja, pois, na paróquia dos crentes regenerados que se irá descobrir a imagem da vida social restaurada, da sociedade como Deus a tem desejado. Imagem fragmentária, é verdade, em virtude da persistência do pecado na vida de cada cristão, mas ainda assim válida porque imagem que corresponde ao desígnio de Deus. Pela presença atuante de Cristo, as células naturais da sociedade corrupta encontrarão na igreja a vida sã para qual tinham sido concebidas.

Nos conceitos de “igreja” expostos acima, extraídos do Novo Testamento há o claro ensino da Igreja como um organismo vivo cuja origem é o próprio Deus, essa comunidade de seguidores de Cristo possui a sua manifestação visível nas diversas localidades, porém sem se limitar a elas, pois não possui fronteiras; e em cada localidade está distribuída em células básicas nos lares como uma “igreja doméstica”. A “Igreja cristã neotestamentária” mantém a sua humanidade, pois é formada por donas de casas, mães e pais de família, pessoas de diferentes classes sociais e oriundas de diversas nacionalidades. A Igreja é formada por todos aqueles que em todo lugar ou época invocam o nome do Senhor Jesus Cristo.

Em todos esses conceitos, percebemos nitidamente o ensino da “Igreja” como um povo que serve a Deus em Cristo. Também não percebemos na análise desses conceitos quaisquer distinções do tipo profano-sagrado em relação a grupos ou indivíduos na “Igreja”. E até mesmo as expressões atuais utilizadas (clero e laicato) para distinguir os membros da “Igreja” daqueles que a governam são aplicadas a todos os crentes.



[1] Para um aprofundamento maior desse tema, é importante ler a primeira palestra de Abraham Kuyper no livro Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.

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