segunda-feira, 21 de julho de 2008

Orientando-se Por Uma Teologia Bíblica da Igreja



Este tópico é conseqüência lógica dos anteriores, pois as ações da Igreja, sua cosmovisão (no sentido de transcender a dicotomia sagrado-profano), e o seu triunfo sobre a institucionalização devem ser pautados pelo ensino das Escrituras.
Pois se percebe que a Igreja na atualidade ou sofre influência dos movimentos de crescimento de igreja ou enfatiza de forma extrema modelos extraídos de determinados períodos da história eclesiástica. Porém tanto os modelos eclesiásticos apresentados pelos movimentos de crescimento de igreja quanto os extraídos de determinados períodos da história cristã devem ser submetidos ao exame das Escrituras.

Isso deve conduzir a defesa de uma teologia eclesiológica que seja o resultado do exame das Escrituras, pois a tradição cristã originária do protestantismo, através dos seus catecismos e confissões, sempre defendeu que nenhuma decisão na vida da Igreja deve ser tomada sem amparo no ensino das Escrituras, e que as controvérsias existentes no seio da Igreja de Cristo precisam ser resolvidas através do exame das Escrituras em suas línguas originais, é por isso que a Confissão de Westminster (2001, p.23) declara:

O Antigo Testamento em hebraico (língua original do antigo povo de Deus) e o Novo Testamento em grego (a língua mais geralmente conhecida entre as nações no tempo em que ele foi escrito), sendo inspirados imediatamente por Deus, e pelo seu singular cuidado e providência conservados puros em todos os séculos, são, por isso, autênticos, e assim em todas as controvérsias religiosas a Igreja deve apelar para eles como para um supremo tribunal; mas, não sendo essas línguas conhecidas por todo o povo de Deus, que tem direito e interesse nas Escrituras, e que deve, no temor de Deus, lê-las e estudá-las, esses livros têm de ser traduzidos nas línguas vulgares de todas as nações aonde chegarem, a fim de que a Palavra de Deus, permanecendo nelas abundantemente, adorem a Deus de modo aceitável e possuam a esperança pela paciência e conforto das Escrituras.
As questões relacionadas com a Igreja necessitam ser vistas sob a luz da Palavra de Deus, tais como: o que concebemos ser a Igreja de Cristo? Qual a sua essência e propósito? De onde deriva a sua missão e a sua apostolicidade? Quais os papéis de clérigos e leigos no cumprimento dessa missão? Qual a relação da Igreja com o mundo? Como deve se posicionar frente às perguntas que emergem da sociedade? Essas e outras questões.

A história eclesiástica nos traz uma lição belíssima que deve ser lembrada a cada nova geração de cristãos: todas as vezes que a Igreja de Cristo substituiu as Escrituras, única norma de fé e prática, por filosofias e tradições puramente humanas, ela perdeu-se de tal forma em desvios doutrinários e morais, tornando-se irreconhecível. E somente o retorno à fonte de onde retira seu alimento, as verdades das Escrituras, reconduz a Igreja ao seu rumo, como expõe Weyel (2003, p.65-66):

Uma igreja que visa ser ou tornar-se igreja apostólica não pode desembarcar da história. Contudo, precisa remar contra a correnteza, a fim de reencontrar a água pura e límpida. O retorno à fonte é possível! Ela existe! Não está ressequida nem coberta por vegetação. Foi captada em documentos das primeiras testemunhas, na Escritura do Antigo e Novo Testamentos.
A reforma do século XVI é um exemplo desse retorno à fonte, isso é reconhecido até mesmo por teólogos católicos como o padre Antônio José de Almeida (2006, p.168):

A estratégia teológica dos reformadores é clara: realizar a reforma da Igreja da época, suplantando o acúmulo de “tradições” e “traições” da Igreja de Roma por meio de um retorno à pureza originária da Igreja primitiva. A reforma é um “retorno à forma primigênia” da Igreja (reformatio).
E ainda (2006, p.169):

Era, portanto, de esperar que os reformadores apelassem somente à Escritura como norma para compreender a Igreja, os ministérios na Igreja, a condição dos cristãos e cristãs. De fato, os reformadores – isso vale para o inglês Wyclif (ca. 1330-1384), o boêmio Hus (ca. 1370-1415), os suíços H. Zwingli (1484-1531) e J. Calvino (1509-1564) e especialmente o alemão M. Lutero (1483-1546) – e seus precursores, não necessariamente heréticos, – pense-se, por exemplo, sem, todavia, nivelá-los, em Marsílio de Pádua, Guilherme de Ockham, Pedro de Ailly, Jean Gerson, e na Devotio moderna – empalmaram a teoria da absoluta auto-suficiência da Escritura, negando o valor vinculador da tradição da Igreja e do seu magistério, ou seja, toda mediação da Igreja na transmissão e interpretação da revelação: um biblicismo integral, absoluto e individualista.
Portanto concluímos que o modelo proposto pela reforma, ou seja, as Escrituras como fonte de onde se deve extrair as verdades que transformarão a Igreja, precisa ser seguido pela Igreja hoje. Pois a reforma apontou alguns dos problemas existentes na Igreja da sua época e buscou a solução para eles nas páginas da Escritura. Mas deve-se reconhecer que a reforma não trouxe todas as respostas, deixando questões a serem resolvidas pela Igreja de hoje e além dessas há também as questões hodiernas com as quais a Igreja necessita lidar. E ambas as questões, as do passado e as atuais, só serão respondidas satisfatoriamente pelas Escrituras.

5 comentários:

Aláuli Oliveira disse...

Muito boa a iniciativa!
É um texto relevante e que aponta para um dos principais problemas de nossas igrejas.
Parabéns!

VOZ DA REFORMA disse...

Muito obrigado pelas palavras, desejo que este blog seja um instrumento que promova a reflexão e, como consequência, mudanças na realidade da Igreja Cristã.

Um abraço,

Alexandre

Renato Cunha disse...

Mano,

Sua inteligência e perspicácia me assombram. Deus continue te abençoando. De seu cumpadre de fé e devoção,

Renato.

João Ricardo disse...

Gostei muito do seu artigo voce está de parabéns nobre amigo - defensor da verdade

VOZ DA REFORMA disse...

Muito obrigado, querido irmão João Ricardo, a tua opinião possui grande valor para mim. Que Deus te abençoe.

Um abraço do teu amigo.

Alexandre