segunda-feira, 14 de julho de 2008

Transcendendo Dicotomias do Tipo Sagrado-Profano


Antes que qualquer comentário sobre a realidade da Igreja seja realizado, reconhecemos a necessidade de uma apresentação dos conceitos de “sagrado” e “profano” para fins de clareza na exposição do assunto.

Os conceitos de “sagrado” e “profano” costumam ser expostos juntos nas obras que realizam alguma abordagem sobre eles. Pois se trata de conceitos antitéticos e ao mesmo tempo complementares, pois o conceito de “sagrado” só adquire sentido ao ser exposto em sua relação com o conceito de “profano”. Ao mesmo tempo estas são categorias opostas e excludentes: só é “sagrado” aquilo que não é “profano”.

Em termos gerais, “o sagrado” costuma ser entendido como tudo o que em relação com a divindade é extraordinário, anormal, fora do comum, especial, do outro mundo; e “o profano” como aquilo que se relaciona com o normal, comum, cotidiano, com as coisas deste mundo.
Rudolf Otto, em sua obra clássica O Sagrado, apresenta “o sagrado” em seus aspectos irracionais na noção do divino (como noção fundamental que ocorre somente no campo religioso, uma categoria que foge totalmente à apreensão conceitual) e sua relação com o racional.
O elemento racional, segundo Otto (2007, p.33), é o que o nosso entendimento apreende e interpreta, explicitando em termos de conceito:

Para toda e qualquer idéia teísta de Deus, sobretudo para a cristã, é essencial que ela defina a divindade com clareza, caracterizando-a com atributos como espírito, razão, vontade, intenção, boa vontade, onipotência, unidade da essência, consciência e similares, e que ela portanto seja pensada como correspondendo ao aspecto pessoal-racional, como o ser humano o percebe em si próprio de forma limitada e inibida. No divino, todos esses atributos são pensados como sendo “absolutos”, ou seja, como “perfeitos”. Trata-se, no caso, de conceitos claros e nítidos, acessíveis ao pensamento, à análise pensante, podendo inclusive ser definidos. Se chamarmos de racional um objeto que pode ser pensado com essa clareza conceitual, deve-se caracterizar como racional a essência da divindade descrita nesses atributos. E a religião que os reconheça e firme é, nesse sentido, uma religião racional. Somente por intermédio deles é possível “fé” como convicção com conceitos claros, à diferença do mero “sentir”.
E tendo apresentado o elemento racional, Otto (2007, p.34) expõe: "Entretanto também é preciso alertar contra um mal-entendido que levaria a uma interpretação enganosa e unilateral, ou seja, a opinião de que os atributos racionais mencionados e outros similares, a ser eventualmente acrescentados, esgotariam a essência da divindade".

Otto (2007, p.38) criou o neologismo “o numinoso”, do latim numen, deidade, com a intenção de elucidar “o sagrado” em seus aspectos irracionais. O elemento “numinoso” pode ser identificado como um princípio ativo presente na totalidade das religiões como portador da idéia do bem absoluto. Desta forma Rudolf Otto fala do sagrado como algo que denota a manifestação do numen, do poder divino, do “outro absoluto”, algo totalmente distinto de qualquer outra experiência[1], “o sagrado” como algo que foge ao natural.

Para Émile Durkheim (1989, p.68), “sagrado” e “profano” pertencem a dois mundos contrários, em torno dos quais gravita a vida religiosa:

Todas as crenças religiosas conhecidas [...] supõe uma classificação das coisas [...] em duas classes ou em dois gêneros opostos, designados [...] pelas palavras profano e sagrado. A divisão do mundo em dois domínios, compreendendo, um tudo o que é sagrado, e outro tudo o que é profano, tal é o traço distintivo do pensamento religioso [...].

Tendo exposto os conceitos de “sagrado” e “profano”, vejamos como estes se relacionam com a Igreja.

Historicamente, a Igreja Romana tem diferenciado clérigos e leigos por meio da sua teologia da “distinção de planos”, “uma teologia que se elaborou a partir da compreensão de dois universos de significação em que se exigiam dois tipos de serviços, o temporal e o espiritual” (DUARTE, 2003, p.51). Na ótica dessa teologia, o leigo por se envolver em questões do mundo, seculares, atua numa ordem temporal, profana; por sua vez os clérigos cuidam da ordem espiritual, envolvendo-se em questões eternas, portanto sagradas. Desta forma, o clero (padres, bispos, arcebispos, cardeais, etc...) são vistos como sagrados, prestando um serviço superior ao que é prestado pelos leigos no mundo.

Por sua vez, quando observamos a Igreja Protestante no Brasil[2] é possível perceber como as noções sobre “o sagrado” e “o profano” também se relacionam com ela.

O seguimento pentecostal e neo-pentecostal realizam uma interpretação da realidade em termos de “magia”, identificando os males sociais, como as doenças e pobreza, com a atuação dos poderes dos demônios. Esta visão é alimentada pela sua peculiar “teologia da prosperidade”.

A teologia da prosperidade sintetiza, com o eixo “posse da salvação”, a tradição teológica fundante e fundamental do cristianismo latino: criação-redenção. Sua estrutura poderia ser esquematizada da seguinte maneira:
a) Deus criou todas as coisas para seus filhos, para que fossem felizes possuindo esses bens originais. Essa teologia da criação é o princípio de toda a vida, o in illo tempore de onde pode fluir no hoje de cada fiel a vida feliz. Essa felicidade é um direito natural dos filhos de Deus e concretiza-se como bem-estar social e pessoal.
b) Essa posse natural foi perdida com o pecado, que tem como causa direta o demônio. Todos os males do mundo e, de modo particular, os males que impedem a felicidade podem ser vencidos.
c) Jesus pode religar as criaturas com o Criador desde que aceito pelo fiel. Seu sangue tem poder sem limites e o ato de fé, expresso no gesto da doação, é a demonstração inequívoca da entrega que exige de Deus a realização de sua promessa de felicidade (PASSOS, 2005, p.72).

E no que diz respeito a sua liderança, o seguimento pentecostal demonstra uma predileção por bispos e apóstolos autonomeados, que são apresentados como possuidores de dons extraordinários de operação de curas e milagres. Isto faz com que sejam venerados como “semideuses”, cobertos por uma auréola de perfeição e espiritualidade superiores a dos demais membros da comunidade religiosa. Esses líderes são vistos como pessoas que transcenderam o nível da espiritualidade comum para um nível elevado no qual se relacionam intimamente com Deus. E por isso Deus os dotou de extraordinárias capacidades de receber revelações diretas da parte dele[3]. Desta forma, as suas palavras são investidas de autoridade divina, ir contra elas é compreendido como sendo o mesmo que ir contra as palavras do próprio Deus.
Outro aspecto presente na Igreja Evangélica Brasileira é o de encarar os pastores como mediadores entre Deus e os homens, uma manifestação da alma católica dos evangélicos no Brasil como o Dr. Augustus Nicodemus (2007, p.2) nos esclarece:

No Catolicismo, a Igreja é mediadora entre Deus e os homens e transmite a graça divina mediante os sacramentos, as indulgências, as orações. Os sacerdotes católicos são vistos como aqueles através de quem essa graça é concedida, pois são eles que, com as suas palavras, transformam na Missa o pão e o vinho no corpo e no sangue de Cristo; que aplicam a água benta no batismo para remissão de pecados; que ouvem a confissão do povo e pronunciam o perdão de pecados. Essa mentalidade de mediação humana passou para os evangélicos, com poucas mudanças. Até nas igrejas chamadas históricas, os crentes brasileiros agem como se a oração do pastor fosse mais poderosa do que a deles e como se os pastores funcionassem como mediadores entre eles e os favores divinos. Esse ranço do Catolicismo vem sendo cada vez mais explorado por setores neopentecostais do evangelicalismo, a julgar por práticas como “a oração dos 318 homens de Deus”, “prece poderosa do bispo tal”, “a oração da irmã fulana, que é profetisa”, etc.
E ainda, no protestantismo brasileiro (incluindo-se aqui as chamadas Igrejas Históricas ou Tradicionais), enfatiza-se o ministério do pastor de tal forma que, na prática, adquire o status de ministério mais importante na Igreja, ou na maioria das ocasiões o ministério do pastor torna-se o único existente, sem o qual os membros da Igreja não conseguem realizar qualquer serviço, pois a tarefa dos membros (leigos) consiste em apoiar o ministério do pastor.

O pastor, por ter sido ordenado, é visto como alguém chamado por Deus para um serviço superior ao dos demais cristãos (não ordenados). Desta forma, o serviço prestado pelo pastor num contexto religioso é visto como sagrado e o serviço dos demais cristãos, por ser realizado no mundo, é encarado como de menor valor, ou até mesmo profano. Devido a isso, mesmo que, em termos teológicos, não se reconheça o ato de ordenação como sacramento (como o sacramento da Ordem nos círculos católicos), na prática ele se reveste de características sacramentais. Pois a ordenação transfere o ordenando de uma esfera de serviço comum para uma esfera de serviço sagrado.

Porém como é possível concluir do que foi extraído do Novo Testamento e exposto neste trabalho tal distinção não encontra apoio legítimo nas Sagradas Escrituras. Pois o Novo Testamento apresenta todos os cristãos como participantes de um mesmo sacerdócio, sendo todos iguais perante Deus, distinguidos apenas pela função que cada um é chamado a exercer.
Esta foi uma das preciosas verdades trazidas á luz pela Reforma do século XVI. Lutero (2007, p.106), refutando o sacramento católico da Ordem como uma forma de dominação tirânica dos clérigos sobre os leigos, afirma o sacerdócio de todos os cristãos:

Daí, pois, vem essa detestável tirania dos clérigos com relação aos leigos. Confiam na unção corporal pela qual suas mãos são consagradas e, depois, na tonsura e na veste. Não só crêem que são mais que os leigos cristãos, que são ungidos com Espírito Santo, mas até os consideram cachorros indignos de serem enumerados juntamente com eles na Igreja[4]. Por isso atrevem-se a mandar, exigir, ameaçar, pressionar e espremer em todo sentido. Resumindo: o sacramento da Ordem foi e continua sendo uma maquinação belíssima para consolidar todas as monstruosidades que se cometem até o presente e que ainda se cometem na Igreja. Aqui desaparece a fraternidade cristã, aqui os pastores se transformam em lobos, os servos em tiranos, os eclesiásticos em mais que mundanos.
Caso se virem obrigados a admitir que nós todos somos igualmente sacerdotes, todos os que fomos batizados – como na verdade somos e que a eles apenas se confiou o ministério, mas por consenso nosso –, deveriam reconhecer simultaneamente que não têm direito algum de dominar-nos, a não ser até onde admitirmos espontaneamente. Assim diz 1 Pedro 2.9: “Vós sois raça eleita, sacerdócio real e reino sacerdotal”. Por isso somos todos sacerdotes, todos quantos somos cristãos. No entanto, os que denominamos de sacerdotes são ministros eleitos dentre nós e devem fazer tudo em nosso nome.

Lutero (2007, p.108) com lucidez percebeu que o ato de ordenação não torna um cristão superior a outro: “Fugi, pois, por meu conselho, todos os que desejais viver seguros; fugi, jovens, e não vos inicieis nessas ordens, a não ser que queirais evangelizar ou sejais capazes de crer que por esse sacramento da ordem em nada vos tornastes melhores que os leigos”.

Outra questão que pode ser apresentada como resultado do que foi exposto do Novo Testamento neste trabalho é que o chamado de Deus não se limita apenas a pastores, nem tão pouco se destina apenas a questões de natureza intimamente eclesiásticas. Mas o chamado de Deus é feito a todos os cristãos e extensivo a todas as esferas da vida humana.

Esta é outra evidência escriturística manifesta pela Reforma. Por isso, Lutero (2007, p.76) põe todos os trabalhos realizados pelos cristãos em igualdade perante Deus:

Por isso não aconselho a ninguém, mas admoesto a todos a que não ingressem em nenhuma ordem ou sacerdócio, a não ser que estejam providos da ciência que os faça compreender que as obras dos monges e sacerdotes, por sagradas e difíceis que sejam, em absoluto, em nada se distinguem, ante os olhos de Deus, das obras de um lavrador que trabalha no campo, nem de uma mulher que atende seus afazeres domésticos, mas que ante o Senhor todos são medidos por uma só fé.
E por sua vez Kuyper (2003, p.62-63), em suas palestras sobre o Calvinismo, o apresenta como expositor de uma religião abrangente que se estende a todos os aspectos da vida:

O mesmo caráter de universalidade foi reivindicado pelos calvinistas para a esfera da religião e seu círculo de influência entre os homens. Toda a criação foi suprida por Deus com uma lei imutável de sua existência. E porque Deus ordenou plenamente tais leis e ordenanças para toda a vida, o calvinista exige que toda a vida seja consagrada ao seu serviço, em estrita obediência. Portanto, Calvino abomina a religião limitada ao gabinete, à cela ou à igreja. Com o salmista, ele invoca o céu e a terra, invoca todas as pessoas e nações a dar glória a Deus.
Deus está presente em toda vida com a influência de seu poder onipresente e Todo-Poderoso e nenhuma esfera da vida humana é concebível na qual a religião não sustente suas exigências para que Deus seja louvado, para que as ordenanças de Deus sejam observadas, e que todo labora seja impregnado com sua ora em fervente e contínua oração. Onde quer que o homem possa estar, tudo quanto possa fazer, em tudo que possa aplicar sua mão – na agricultura, no comércio e na indústria –, ou sua mente, no mundo da arte e ciência, ele está, seja no que for, constantemente posicionado diante da face de Deus, está impregnado no serviço de seu Deus, deve obedecer estritamente seu Deus e, acima de tudo, deve objetivar a glória de seu Deus. Consequentemente, é impossível para um calvinista limitar a religião a um grupo em particular ou algum círculo entre os homens.

Portanto não há um só lugar em toda a existência no qual Deus seja posto de fora, pois se faz presente em todos os lugares e exige obediência e serviço de todas as suas criaturas. Todos e tudo estão perante Deus, por isso não há uma função se sequer desempenhada pelos homens que não os torne devedores a ele, todos terão que prestar contas a ele do que for realizado neste mundo, Deus é soberano Senhor da sua criação. Isso nos leva a concluir que todos os trabalhos feitos pelos homens são do interesse de Deus, então nesse sentido, todas as atividades dos homens, por se relacionarem com Deus, devem ser santas e devido a isso são sagradas.
Autor: Alexandre de Jesus dos Prazeres.

[1] O conceito apresentado por Rudolf Otto assemelha-se ao que Calvino nas Institutas expõe como “divinitatis sensus, quaedam divini numinis intelligentia” (“uma percepção da divindade, certa intelecção do numen, divino”).
[2] Ao fazer referência a Igreja Protestante no Brasil aqui neste trabalho, reconhecemos a imensa dificuldade que há em se definir protestantismo ou Igreja Evangélica no Brasil, devido ao número enorme de denominações cada uma revelando uma diversidade de crenças e práticas litúrgicas. Por isso as afirmações que fazemos são gerais.
[3] Igrejas Neo-pentecostais possuem fundadores que são tidos como possuidores de dons extraordinários cujas ordens são seguidas como se fossem as do próprio Deus, por exemplo: na Igreja Universal do Reino Deus, há a figura de Edir Macedo; na Igreja Internacional da Graça, R. R. Soares;na Igreja Deus é Amor, David Miranda; na Igreja Renascer em Cristo, o apóstolo Estevão Hernandes e a Bispa Sônia; e na Igreja Sara Nossa Terra, o Bispo Rodovalho.
[4] Esta afirmação de Lutero está relacionada com a distinção que é feita pela Igreja de Roma entre a ecclesia docens e a ecclesia audiens (Igreja docente e ouvinte), a Igreja que consiste dos que governam, ensinam e edificam e a igreja que é ensinada e governada, e que recebe os sacramentos. A igreja romana declara haver duas classes de pessoas na igreja: os clérigos, dedicados ao serviço de Deus, que constituem uma unidade composta por pessoas sagradas; e os leigos, que consistem as pessoas de todas as esferas da vida e que constituem uma classe separada. Mas “no sentido estrito da palavra, não é a ecclesia audiens que constitui a Igreja, mas, sim, a ecclesia docens. Esta participa diretamente dos gloriosos atributos da Igreja, mas aquela só indiretamente é adornada por eles” (Berkhof, 1990, p. 517).

2 comentários:

Renato Cunha disse...

Parabéns pela iniciativa meu preclaro amigo Alexandre. Desejo todo o sucesso ao Voz da Reforma. Tenho certeza que este blog será um importante canal difusor de boa teologia reformada. Deus o abençoe ricamente.

VOZ DA REFORMA disse...

obrigado, Renato. Rogo a Deus condições para tornar este veículo de comunicação um canal de debate e divulgação de idéias que promovam a edificação da Igreja.