segunda-feira, 14 de julho de 2008

Triunfando Sobre A Institucionalização

Uma realidade contra a qual a Igreja sempre estará em conflito é a da institucionalização. Pois se trata de algo que ocorre naturalmente com qualquer grupo de pessoas que se reúnem em torno de objetivos. Pois o ato de congregar indivíduos mais cedo ou mais tarde exigirá a instalação de uma estrutura organizacional. E na medida em que essa estrutura for se tornando cada vez mais sólida com o transcorrer do tempo, tornar-se-á cada vez mais impessoal. Com o tempo a organização torna-se cada vez maior, gerando uma hierarquia de liderança distanciada dos que são liderados, agravando, desse modo, os problemas de comunicação entre líderes e liderados numa relação de cima para baixo e de baixo para cima. Isso faz com que as pessoas envoltas na estrutura organizacional se sintam sem importância para a organização.

A institucionalização confere maior valor à organização (a forma, estrutura) do que as pessoas que a constituem, os indivíduos são vistos como engrenagens de uma máquina que faz com que a organização funcione. Neste ponto, a estrutura adquire maior importância do que os objetivos que a originaram. Prédios, regimentos internos, normas (mesmo as que já perderam a sua razão de ser) se tornam mais importantes que as pessoas. A burocracia assume o governo numa estrutura rígida e inflexível, não deixando espaço para criatividade. E para sobreviver nesse tipo de estrutura fria e impessoal, os indivíduos desenvolvem interesses particulares dentro da organização, originando uma competição entre pessoas e partidos que vão se formando.
A conseqüência natural de tudo isso é que as pessoas envolvidas nesse contexto são tomadas por um estado de desânimo, não encontrando razão para atuar na organização como faziam no início, tornam-se abatidas e passam a criticar a organização e as outras pessoas inseridas nela, principalmente os seus líderes.

Essas transformações oriundas do processo de institucionalização podem ser observadas na Igreja no desenvolver da sua história. Por exemplo, no século XVI, os cristãos inconformados com as estruturas ímpias e corruptas da Igreja Romana institucionalizada, clamavam por uma reforma que transformasse esse estado de coisas. Esse clamor por reforma é um fato histórico reconhecido até mesmo por católicos como o Padre Antônio José de Almeida (2006, p.167) que em seu livro Leigos em quê? : uma abordagem histórica escreve: “Nos últimos séculos da Idade Média, de todos os lados – de simples fiéis e eclesiásticos, de escritores ilustres e professores universitários, de santos e hereges –, ergue-se um forte clamor em prol de uma reforma”.

Enfim, a reforma ocorreu, porém tendo transcorrido alguns anos, comunidades eclesiásticas oriundas do movimento de Reforma mergulham num estado de apatia e enrijecimento, numa ortodoxia estéril, acabando por ocasionar o surgimento de movimentos periféricos como o pietista (no contexto da Igreja Luterana) e o puritano (nos círculos reformados) que atuam em prol de um retorno àquela vitalidade característica da Igreja que vive segundo os padrões das Escrituras.

De modo semelhante, é perceptível na Igreja hodierna descontentamentos ocasionados por processos de institucionalização, principalmente nas Igrejas Históricas, que naturalmente manifestam forte apego as suas estruturas, porém em muitas ocasiões sem saber distinguir entre o essencial e o acessório[1], seguindo regimentos de forma inflexível, atribuindo-lhes cause que canonicidade. Nessas denominações, adquire êxito em seus empreendimentos eclesiásticos quem obtiver maior domínio da legislação da igreja. O perigo disso é que nessas circunstâncias ninguém pára com o propósito de buscar orientação divina e para discernir a vontade de Deus em certos acontecimentos. Portanto, correndo o risco de rejeitar as obras de Deus por não saber distingui-las, como os judeus fizeram com Jesus. O Filho de Deus estava diante deles, operando maravilhas perante seus olhos, mas mesmo assim sofreu ameaça de apedrejamento (Jo 10. 31, 32), levando Jesus a dizer-lhes: “Se não faço as obras de meu Pai, não acrediteis em mim. Mas se as faço, e não credes em mim, crede nas obras, para que possais saber e compreender que o Pai está em mim, e eu nele”.

Da forma como o Novo Testamento conceitua a Igreja e apresenta o seu ministério, pode-se extrair orientações preciosas para a Igreja de hoje que sofre as ameaças da institucionalização. O Novo Testamento expõe com clareza que a Igreja não surgiu como conseqüência do planejamento humano, da mesma forma que surge um partido político ou uma empresa, mas a Igreja é oriunda de Deus e lhe pertence. E é da sua origem divina que a Igreja concebe o objetivo da sua existência e de tudo o que realiza neste mundo.

Abraham Kuyper (2003, p.68), apresentando o conceito calvinista da Igreja de Cristo principalmente no que se relaciona com a sua essência, esclarece:

Para o calvinista, a Igreja em sua essência é um organismo espiritual, incluindo céu e terra, mas na atualidade tendo seu centro e o ponto de partida para sua ação, não sobre a terra, mas no céu. Isto deve ser entendido assim: Deus criou o Cosmo geocentricamente, isto é, ele colocou o centro espiritual deste universo em nosso planeta e produziu todas as divisões dos reinos da natureza sobre esta terra, para culminar no homem, a quem, como portador de sua imagem, ele chamou para consagrar o Cosmo para sua glória.
Kuyper (2003, p.69) entende que o calvinismo concebe a essência da Igreja como celestial e não terrena:

Na Idade Média, a Igreja perdeu mais e mais a visão desse caráter celestial, – tornando-se mundana em sua natureza. O Santuário novamente foi trazido de volta para a terra, o altar foi reconstruído com pedras e uma hierarquia sacerdotal se reconstituiu para a ministração do altar. A seguir, certamente, foi necessário renovar o sacrifício tangível na terra e isto finalmente levou a igreja a criar a oferta sem sangue da Missa. Então, o Calvinismo se opôs contra tudo isso, não para contender em princípio contra o sacerdócio ou contra o altar como tal, ou contra o sacrifício em si, porque o ofício de sacerdote não pode perecer e todos que conhecem o fato do pecado compreendem em seu próprio coração a absoluta necessidade de um sacrifício propiciatório; mas para livrar-se de toda esta parafernália mundana e para chamar os crentes a erguerem seus olhos novamente para cima, para o verdadeiro santuário, onde Cristo, nosso único sacerdote, ministra no único e verdadeiro altar. A batalha foi travada não contra o sacerdotium, mas contra o sacerdotalismo[2], e somente Calvino sustentou esta batalha até o fim com completa resistência.
Do mesmo modo que a essência da Igreja, para Kuyper (2003, p.74), o calvinismo compreende o propósito da Igreja como celestial: “mas ainda, também, sobre a terra, a Igreja existe simplesmente por causa de Deus”.

Nessa origem divina ou celestial, está o poder renovador para que a Igreja através do tempo não se perca nos processos de institucionalização. Da sua essência e propósito celestiais, a Igreja deve extrair discernimento para orientar as suas ações, tanto em questões internas de governo como na concepção dos ministérios de clérigos e leigos no seu seio, compreendendo que ambos (clérigos e leigos) são apresentados nas Escrituras como iguais no serviço e devem ser definidos como servos.

Os luteranos e os episcopais reconstituíram um tipo de altar sobre a terra: somente o Calvinismo ousou colocá-lo inteiramente longe. Consequentemente, entre os episcopais o sacerdócio terreno foi mantido até mesmo na forma de uma hierarquia; nas terras luteranas o soberano tornou-se o summus episcopus e a divisão de classes eclesiásticas foi mantida; mas o Calvinismo proclamou a absoluta igualdade de todos que estão engajados no serviço da igreja e recusou atribuir a seus líderes e oficiais qualquer outro caráter senão aquele de Ministros (isto é, servos). Aquilo que, sob a sombra da dispensação do Antigo Testamento, fornecia instrução intuitiva pelos tipos e símbolos, agora que os tipos estavam cumpridos, tinha se tornado para Calvino um detrimento para glória de Cristo e rebaixava a natureza celestial da Igreja. Portanto, o Calvinismo não poderia descansar até que o ouropel mundano tivesse deixado de encantar e atrair os olhos. Somente quando o último resquício do fermento sacerdotal tiver sido eliminado poderá Igreja sobre a terra novamente torna-se o pátio exterior, do qual os crentes poderão olhar para cima e para frente para o verdadeiro santuário do Deus vivo no céu (KUYPER, 2003, p.69-70).
Autor: Alexandre de Jesus dos Prazeres.

[1] Acessório: secundário, que acompanha o principal, servindo-lhe de alguma forma, ainda que não lhe seja parte integrante.
[2] Sacerdotalismo é a doutrina segundo a qual o sacerdote oferece sacrifício na Eucaristia.

2 comentários:

Renato Cunha disse...

Belo post mano. Fiquei com aquela inveja. O que sempre quis escrever, Deus aprouve abençoar-te e fazer de ti o autor. Um grande abraço.

VOZ DA REFORMA disse...

Mais uma vez obrigado, mano. Desejo o mesmo para você, que o SENHOR o faça fecundo em teus empreendimentos.