domingo, 10 de agosto de 2008

Concebendo A Igreja Como Multiplicidade de Dons e Ministérios

Na atualidade, a Igreja de Cristo enfatiza um único ministério, o do pastor. Para que este ministério seja desempenhado com êxito, a Igreja investe grande parte dos seus recursos nele, tanto os recursos financeiros como os de ordem pessoal, pois os membros da Igreja são postos a disposição do pastor para ajudá-lo no desempenho do seu ministério. Desta maneira, em termos práticos, há poucas oportunidades para que os demais membros da comunidade cristã assumam as suas vocações e desempenhem alguma atividade ministerial.

Porém, como vimos no capítulo anterior, a Igreja de Cristo é uma multiplicidade de dons e ministérios. O Novo Testamento apresenta a Igreja como serva de Cristo, nela, todos são chamados ao serviço (ministério). Para que a Igreja realize com êxito o seu ministério, cada um dos seus membros foi dotado com dons espirituais pelo Espírito Santo. Estes dons são entregues aos membros do corpo de Cristo para que sirvam eficazmente, contribuindo para o bem de todos.

Para Paulo, portanto, os ministérios são carismas, dons de Deus para o bem de todos; os ministérios dos apóstolos, profetas e doutores encabeçam os carismas dados à Igreja; os nomes dos ministros oficiais, nesta época e pelo menos nas Igrejas relacionadas com o centro missionário de Antioquia, são apóstolos, profetas e doutores, o que significa que estes ministros são essencialmente ministros da palavra; esses ministérios, porém, não constituem todos os dons oferecidos por Deus à Igreja: existe, além deles, grande variedade de dons e funções que são designados com vocabulário muito variável (ALMEIDA, 2001, p.20).
Diante disso, é seguro afirmar que enfatizar um ministério em detrimento de outros é causar empobrecimento a Igreja, contribuindo para que a sua missão no mundo seja prejudicada.

Porém também se deve reconhecer que as raízes desse problema são históricas, estão plantadas de forma profunda num clericalismo que começou a ganhar espaço na Igreja a partir do segundo século da era cristã. Segundo Weyel (2003, p.29):

Quando o ministério episcopal foi preenchido com a compreensão do cargo de sacerdote no Antigo Testamento e quando as idéias romanas e gentílicas sobre cargo foram acolhidas, decaiu o sacerdócio universal de todos os fiéis. Os membros da igreja deixam de ser emancipados, tornando-se meros “leigos”, contrapostos aos “clérigos”, precisando deles como mediadores da salvação. A comunidade eclesial passa a ser igreja episcopal hierárquica.
Mas ainda se deve reconhecer também que essa ênfase dada ao ministério pastoral em detrimento dos outros se fundamenta numa visão equivocada da Igreja, como expõe John Stott (1982, p.18):

É seguro dizer que as noções erradas sobre o clero ou o laicato são devidas às noções erradas da Igreja. De fato, para ser mais exato, uma visão muito inferior do laicato é devida à visão demasiado superior do clero, e esta se deve à visão muito baixa da Igreja.
E se a visão que temos da Igreja nesse aspecto ministerial está equivocada, deve-se aceitar a clara necessidade de corrigi-la. Porém essa correção não deve ser realizada segundo critérios puramente pessoais ou devido a interesses de grupos, mas segundo o ensino das Escrituras, através de uma Teologia Bíblica da Igreja como foi exposto no tópico anterior a este.

O Novo Testamento apresenta a concepção correta sobre isso, ou seja, na forma neotestamentária de expor essa questão, Deus distribuiu dons a seu povo para que todos sejam úteis à causa do evangelho e assim a missão da Igreja seja cumprida. Todos devem servir, os oficiais desempenham o seu ministério por meio do pastoreio do rebanho e do treinamento deste, para que este desenvolva com eficácia o seu próprio ministério. Visto que, que os oficiais não possuem condições para realizar tudo sozinhos, como se possuíssem todos os dons entregues a Igreja. Sobre isso, Richard Shaul (2001, p.40) escreve:

Deus dá, a cada igreja local, homens que têm recebido d’Ele diversos dons para o preparo de todos os santos para o Seu serviço e para edificação do Corpo de Cristo. Estas pessoas constituem o ministério da Igreja e é neste ponto que o ministro encontra seu lugar. Se levarmos a sério, porém, as conclusões bíblicas mencionadas anteriormente, não podemos concluir que, numa igreja local, o pastor pode reunir em si todos estes dons de ministério que Deus tem dado. Markus Barth, numa exegese do capítulo 12 de I Coríntios, insiste que seria mais certo começar afirmando que o Espírito Santo dá a cada membro da Igreja, algum carisma para ministrar à edificação do corpo inteiro (A Chapter on the Church – The Boyd of Christ; Interpretation, abril de 1958, pp.131 ff.). Parece evidente que em cada congregação Deus equipa várias pessoas com dons especiais. O ministro é uma destas pessoas, mas não a única. Nenhum pastor pode ser especialista ou ter dons para liturgia, a pregação e a música; para o ensino de crianças, adolescentes, moços e adultos; para a orientação espiritual e intelectual do povo de Deus e ao mesmo tempo para todos os aspectos da obra administrativa da Igreja; para a evangelização, a obra pastoral e a representação da Igreja em todas as esferas da vida pública. Ele possuirá alguns destes dons em alto grau; e o seu estudo no seminário terá contribuído para o desenvolvimento de outras capacidades, mas em qualquer igreja onde for, ele encontrará uma variedade de pessoas que possuirão um ou outro destes dons, e que têm sido dadas àquela Igreja por Deus.
Em meio à multiplicidade de dons e ministério na Igreja, como o pastor deve compreender biblicamente o seu ministério? Shaul (2001, p.41) apresenta a forma como o Novo Testamento esclarece a esta dúvida:

O que coloca o pastor numa posição muito especial na Igreja e define o caráter único da sua vocação é o fato de ser ele a pessoa especialmente escolhida e preparada para descobrir, orientar e preparar todos os que Deus tem levantado para o Seu serviço. O pastor é a pessoa que tem a mais ampla visão da obra total da Igreja e procura comunicá-la aos outros membros; ele é quem está numa posição especial em que pode descobrir pessoas dotadas por Deus para um ou outro serviço, conseguir que a Igreja reconheça cada dom e orientar cada pessoa no seu preparo mais completo para o exercício desse dom. É o pastor que, possuindo alguns desses dons, tem a autoridade de reunir em redor de si equipes de pessoas para liderar e preparar a Igreja nas principais esferas da sua vida e ajudar esses grupos a descobrir o que significa trabalharem juntos como uma comunidade de servos de Cristo. Na medida em que o pastor conseguir realizar esta obra, a sua igreja terá uma vida interna cada vez mais rica, e o seu impacto missionário no mundo será cada vez mais profundo e extenso.
Sim, o que foi exposto resume o ensino neotestamentário sobre o assunto, agora sendo competência da Igreja aplicar este ensino á sua prática, corrigindo os equívocos existentes.