quinta-feira, 25 de setembro de 2008

O Ministério da Igreja: O Sacerdócio Universal de Todos Os Crentes

A doutrina bíblica do “sacerdócio universal dos crentes” possui uma importância vital para compreensão do ministério da Igreja. Pois estabelece a razão de ser da Igreja, a sua essência, o que ela é, “sacerdócio real”. Essa doutrina descreve a Igreja como um povo sacerdotal.
Porém o sacerdócio da Igreja é explicado a partir do sacerdócio do próprio Cristo. Paul Stevens (2005, p.147), apresentando razões para o entendimento de que no Novo Testamento todos os crentes são descritos como tendo o seu sacerdócio derivado do Cristo, expõe as seguintes:

Primeira, o ministério do povo de Deus procede do elevado e permanente sacerdócio de Jesus; ele não é autogerado. Por causa disto, todo crente tem acesso direto a Deus por meio de Jesus e não precisa das penitências e absolvição de um sacerdote humano. Jesus é suficiente. Pelo fato de ele viver eternamente para interceder a nosso favor e porque os crentes estão unidos ao Senhor, a comunidade Cristã é uma comunidade sacerdotal em que todo crente pode ser chamado de sacerdote.
Segunda, todos os crentes participam do ministério sacerdotal contínuo de Cristo; ele não é agora desempenhado representativa ou substitutivamente por alguns escolhidos. Como diz a Carta aos Hebreus: “Temos, pois, um grande sacerdote sobre a casa de Deus. Sendo assim, aproximemo-nos de Deus com um coração sincero e com plena convicção da fé” (Hb 10.21,22). “Consideremos uns aos outros para nos incentivarmos ao amor e às boas obras” (10.24). Este sacerdócio é tanto corporativo como individual.

Do mesmo modo, Calvino (2006, p.255), ao discutir o ofício sacerdotal de Cristo, apresenta o “sacerdócio dos crentes” como participação no sacerdócio de Cristo:

Agora Cristo exerce a função de Sacerdote, não só para que, mercê da eterna lei de reconciliação, nos torne o Pai favorável e propício, mas ainda para que nos admita à participação de tão grande honra [Ap 1.6]. Ora, que em nós mesmos somos depravados, todavia sacerdotes nele, oferecemos a Deus a nós mesmos e a tudo que é nosso e entramos livremente no santuário celeste, para que sejam agradáveis e de bom odor à vista de Deus os sacrifícios de preces e de louvor que de nós procedem. E até este ponto se estende essa afirmação de Cristo: “Por causa deles a mim mesmo me santifico” [Jo 17.19], porquanto, banhados de sua santidade, até onde consigo nos consagrou ao Pai, nós que, de outro modo, cheiramos mal diante dele, lhe agradamos como se fôssemos puros e limpos, aliás, até mesmo santos.

Mais uma vez, temos nas Escrituras a exposição de que o ministério da Igreja neste mundo só possui a sua eficácia e importância devido a sua relação com o ministério de Cristo. Isto faz da Igreja algo maior, mais importante do que uma instituição meramente humana. Como vimos a Igreja se originou do desígnio do próprio Deus. E por isso cumpre a sua missão no mundo em íntima relação com os propósitos e papéis estabelecidos por Deus para ela.
O Novo Testamento ensina claramente sobre “o sacerdócio de todos os crentes” e dentre os seus textos sobre o assunto, 1Pd 2.9 é o que foi utilizado com maior freqüência pelos reformadores Martinho Lutero e João Calvino como fundamento desta doutrina.
O texto em questão afirma que a Igreja de Cristo é “sacerdócio real” (basíleion hieráteuma). Desta forma, utilizando-se da mesma expressão proposta pelos tradutores da Septuaginta (Êx 19.6) em referência a nação de Israel: hymeis dè esesthé moi basíleion hieráteuma kaì ethnos háguion taûta ta rhêmata éreis toîs hyioîos Israel,“vós, porém, ser-me-eis real sacerdócio e nação santa. Estas palavras dirás aos filhos de Israel” (grifo meu). E além desta expressão, Pedro utiliza-se também das expressões “nação santa” (ethnos háguion) e “raça eleita” (génos eklektón) ambas aplicadas no Antigo Testamento a Israel (Dt 7.6, 7). Estabelecendo, assim, uma clara relação entre a Igreja e Israel.
Richardson (1966, p.293) escrevendo sobre o “sacerdócio dos crentes” em seu aspecto sacrificial, declara:

A Igreja cristã é o sacerdócio sacrificial instituído pelo próprio Deus a fim de que a humanidade tivesse acesso ao seu trono e pudesse oferecer-lhe dádivas aceitáveis. Além de 1Pd 2.9 a única vez em que aparece hieráteuma (sacerdócio com o sentido de corpo de sacerdote) no Novo Testamento é em 1Pd 2.5: “Também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo (hieráteuma háguion), a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo” (anerénkai pneumatikàs thysias euprosdéktous Theô dià Iesou Christôu). A comunidade cristã constitui, incorporadamente, um sacerdócio sacrificial que oferece sacrifícios espirituais, por certo, não oferendas materiais como os cordeiros, touros e bodes da antiga dispensação (cf Rm 12.1).
E ainda (1966, p.295):

Em Rm 12.1, São Paulo exorta os cristãos a se oferecerem em sacrifício vivo, em ação sacerdotal racional (parastésai tà sómata hymón thysían dzósan... tèn loguikèn hymôn). O verbo paristánô ou parístemi é termo técnico para apresentação de um sacrifício (cf. Lc 2.22; 1Co 8.8; 2Co 4.14; Cl 1.28; Ef 5.27). Essa idéia reaparece em Paulo: por exemplo, em Rm 6.13-16, onde os cristãos são instados a apresentar-se, ou seus “membros”, a Deus e não ao pecado.

O texto citado acima por Alan Richardson, 1Pd 2.5, afirma que a Igreja é um “sacerdócio santo” (hieráteuma háguion) para ofercer “sacrifícios espirituais agradáveis a Deus” (pneumatikàs thysías euprosdéktous [tô] Theô), porém “através de Jesus Cristo” (dià Iêsoû Christoû). É por meio de Cristo que as ações da Igreja tornam-se aceitáveis perante Deus, pois em Cristo estas são santificadas.
A Igreja está no mundo para servir a Deus e a seus membros. Portanto a doutrina do “sacerdócio universal dos crentes” é extremamente relevante em termos de entendimento do ministério da Igreja. Pois nos conduz a compreensão de que a Igreja enquanto laós de Deus constitui-se num sacerdócio no qual cada um dos seus membros está sendo convocado ao serviço. Serviço este que é responsabilidade de todos os cristãos e não apenas de uma classe especial. Não há no Novo Testamento a menor possibilidade de divisões no seio da Igreja de Cristo. E é baseados no ensino neotestamentário a respeito da unidade da Igreja, em termos de sacerdócio, que os reformadores combateram o conceito católico de cristãos “espirituais” e “temporais”.
Como conclusão desse tópico, cito Lawrence O. Richards e Gib Martin (1984, p.9):

Apesar de declarações tão claras dos Reformadores, a maioria das pessoas continua fazendo distinção entre “clero” e “laicato”. De fato, a falha dos cristãos em compreender a verdade de que, como povo de Deus, cada um é chamado para o ministério, é reconhecida hoje como uma das causas principais do fracasso da igreja moderna em alcançar o mundo com o evangelho, ou em servir eficazmente como aditivo salgado de Deus, preservando a sociedade da injustiça e imoralidade. John R. W. Stott assevera: “Não hesito em dizer que interpretar a igreja em termos de uma casta clerical, ou estrutura hierárquica privilegiadas é destruir a doutrina neotestamentária da igreja”[1].
[1] Citação extraída da obra de John Stott, One People: Laymen and Clergy in God’s Church (Downers Grove: Inter-versity).