quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Boff: Como se formou o poder monárquico-absolutista dos papas


Escrevíamos anteriormente neste espaço que a crise da Igreja-instituicão-hierarquia se radica na absoluta concentração de poder na pessoa do Papa, poder exercido de forma absolutista e distanciado de qualquer participação dos cristãos, criando obstáculos praticamente intransponíveis para o diálogo ecumênico com as outras Igrejas.
Não foi assim no começo. A Igreja era uma comunidade fraternal. Não havia ainda a figura do Papa. Quem comandava na Igreja era o Imperador pois ele era o Sumo Pontífice (Pontifex Maximus) e não o bispo de Roma ou de Constantinopla, as duas capitais do Império. Assim o imperador Constantino convocou o primeiro concílio ecumênico de Nicéia (325) para decidir a questão da divindade de Cristo. Ainda no século VI o imperador Justiniano que refez a união das duas partes do Império, a do Ocidente e a do Oriente, reclamou para si o primado de direito e não o do bispo de Roma. No entanto, pelo fato de em Roma estarem as sepulturas de Pedro e de Paulo, a Igreja romana gozava de especial prestígio, bem como o seu bispo que diante dos outros tinha a "presidência no amor" e o "exercia o serviço de Pedro" o de "confirmar na fé" e não a supremacia de Pedro no mando.
Tudo mudou com o Papa Leão I (440-461), grande jurista e homem de Estado. Ele copiou a forma romana de poder que é o absolutismo e o autoritarismo do Imperador. Começou a interpretar em termos estritamente jurídicos os três textos do Novo Testamento atinentes a Pedro: Pedro como pedra sobre a qual se construiria a Igreja (Mt 16,18), Pedro, o confirmador da fé (Lc 22,32) e Pedro como Pastor que deve tomar conta das ovelhas (Jo 21,15). O sentido bíblico e jesuânico vai numa linha totalmente contrária: do amor, do serviço e da renúncia a toda supremacia. Mas predominou a leitura do direito romano absolutista. Consequentemente Leão I assumiu o título de Sumo Pontífice e de Papa em sentido próprio. Logo após, os demais Papas começaram a usar as insígnias e a indumentária imperial (a púrpura), a mitra, o trono dourado, o báculo, as estolas, o pálio, a cobertura de ombros (mozeta), a formação dos palácios com sua corte e a introdução de hábitos palacianos que perduram até os dias de hoje nos cardeais e nos bispos, coisa que escandaliza não poucos cristãos que leem nos Evangelhos que Jesus era um operário pobre e sem aparato. Então começou a ficar claro que os hierarcas estão mais próximos do palácio de Herodes do que da gruta de Belém.
Mas há um fenômeno para nós de difícil compreensão: no afã de legitimar esta transformação e de garantir o poder absoluto do Papa, forjou-se uma série de documentos falsos. Primeiro, uma pretensa carta do Papa Clemente (+96), sucessor de Pedro em Roma, dirigida a Tiago, irmão do Senhor, o grande pastor de Jerusalém. Nela se dizia que Pedro, antes de morrer, determinara que ele, Clemente, seria o único e legítimo sucessor. E evidentemente os demais que viriam depois. Falsificação maior foi ainda a famosa Doação de Constantino, um documento forjado na época de Leão I segundo o qual Constantino teria dado ao Papa de Roma como doação todo Império Romano. Mais tarde, nas disputas com os reis francos, se criou outra grande falsificação as Pseudodecretais de Isidoro que reuniam falsos documentos e cartas como se viessem dos primeiros séculos que reforçavam o primado jurídico do Papa de Roma. E tudo culminou com o Código de Graciano no século XIII tido como base do direito canônico, mas que se embasava em falsificações de leis e normas que reforçavam o poder central de Roma, não obstante, cânones verdadeiros que circulavam pelas igrejas.
Logicamente, tudo isso foi desmascarado mais tarde sem qualquer modificação no absolutismo dos Papas. Mas é lamentável e um cristão adulto deve conhecer os ardis usados e forjados para gestar um poder que está na contra-mão dos ideais de Jesus e que obscurece o fascínio pela mensagem cristã, portadora de um novo tipo de exercício do poder, serviçal e participativo.
Verificou-se posteriormente um crescendo no poder dos Papas: Gregório VII (+1085) em seu Dictatus Papae ("a ditadura do Papa") se autoproclamou senhor absoluto da Igreja e do mundo; Inocêncio III (+1216) se anunciou como vigário-representante de Cristo e por fim, Inocêncio IV(+1254) se arvorou em representante de Deus. Como tal, sob Pio IX em 1870, o Papa foi proclamado infalível em campo de doutrina e moral. Curiosamente, todos estes excessos nunca foram retratados e corrigidos pela Igreja hierárquica. Eles continuam valendo para escândalo dos que ainda creem no Nazareno pobre, humilde artesão e camponês mediterrâneo, perseguido, executado na cruz e ressuscitado para se insurgir contra toda busca de poder e mais poder mesmo dentro da Igreja. Essa compreensão comete um esquecimento imperdoável: os verdadeiros vigários-representantes de Cristo, segundo o Evangelho (Mt 25,45) são os pobres, os sedentos e os famintos.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

MESTRADO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO DA UNICAP LANÇA EBOOK

Quem disse que religião e teologia não rimam com tecnologia e ciência precisa rir mais (por aqui, quem sabe) ou então conhecer a nossa trajetória. Em 1999 criamos para a Teologia da UNICAP o primeiro Site de Departamento da Universidade e, em 2008, idealizamos as primeiras Disciplinas Semipresenciais através doTeleduc na Católica, conseguindo que o nosso Curso fosse o primeiro a oferecer 20% do currículo pela internet, o que dinamizou os estudos de todo mundo e beneficiou religiosos(as) que fazem atualização a distância (não é à toa que o coordenador de EAD da Católica, Valter Avellar, é nosso Mestre e foi orientando da gente). Em 2009 veio este bloco de notícias oficioso do Mestrado em Ciências da Religião (primeiro Blog relacionado à Universidade), depois lutamos para que as nossas Revistas fossem pra web e agora estamos animando a Editora da UNICAP a se lançar no mundo dos livros eletrônicos: um eBook dos nossos estudantes já está na Amazon!
 
No site dessa que é a maior livraria eletrônica do planeta você encontra um acervo com mais de um milhão de eBooks e pode baixar o primeiro capítulo do livro para ler, antes de decidir se quer comprá-lo. Pode também baixar mais de 38 mil livros eletrônicos inteiramente gratuitos, em nossa língua, incluindo clássicos como A Moreninha, de Joaquim Manuel Macedo e Dom Casmurro, de Machado de Assis. E você vai ler sempre que tiver vontade e onde tiver vontade de ler, pois pode comprar o Kindle, um leitor de eBooks da Amazon (veja aqui) e/ou então baixar gratuitamente um aplicativo de leitura Kindle pro seu tablet, smartphone ou computador.

Sobre "Religião", então, em português mesmo, há mais de oitocentos livros disponíveis pro mundo (veja aqui) na sucursal Brasil da livraria virtual Amazon. E um deles é do nosso Mestrado em Ciências da Religião da Universidade Católica de Pernambuco. É a Edição Kindle do segundo volume do "Mosaico religioso - faces do sagrado", que acabou de sair em fins de 2012 em coedição da Fasa (Editora da Universidade) com a Editora Navras, sob organização do nosso Mestre Vanderlei Lain - a quem agradecemos, penhorados, pelo serviço de divulgação da pesquisa dos colegas. Uma versão do livro em papel ainda vai chegar às livrarias físicas, mas a versão eletrônica já está disponível e por um preço menor: R$ 14,09.

Trata-se de nova coletânea dos estudos dos nossos mestres e mestrandos. Desta feita, a obra reúne reflexões em torno do tema Religião e História, com os capítulos “Do Jesus de Nazaré ao Cristo da Fé: Humanidade e Divindade à Luz da Bíblia e da História”, de Paulo César Pereira; “A Estrutura Social, Política e Religiosa do Antigo Império Iorubá, como Modelo Original no Processo da Hierarquização das Casas de Culto das Religiões Afro-Brasileiras”, de Cláudia Lima; “O Jornalismo Religioso no Século XIX e a Construção de uma Identidade Católica”, de Jair Santana; “Presbiterianos x Assembleianos: Embates em Pernambuco no Início do século XX”, de José Roberto de Souza; “As Filhas de Maria entram na Liça: a Boa Imprensa e Revista Maria (Recife, 1913-1922)”, de Walter Valdevino Amaral; “São Severino dos Ramos: da Devoção ao Santuário, de Crévio Adelino da Rocha; e “O Apoio dos Batistas ao Regime de 64 através do Jornal ‘O Batista’”, de José Ferreira de Lima Júnior.

E o livro traz também, em uma segunda parte, sobre a temática Religião e Contemporaneidade, os seguintes capítulos “A Fé na Experiência Humana”, de Lúcia de Fátima Gomes da Silva; “O Estado da Questão: a Relação Corpo-Alma em Quatro Versões”, de Alexandre de Jesus dos Prazeres; “A Wicca no Brasil: Desenvolvimento e Crescimento”, de Karina Bezerra; “Possessas e Bruxas: sobre o Exorcismo de Mulheres na Catedral da Fé, no Recife”, de Júlio César Tavares Dias; “Elementos para uma Espiritualidade Transreligiosa”, de Maruilson Menezes Souza; “Dos Templos aos Estádios: o Pluralismo Religioso nas Partidas de Futebol”, de Ana Cristina de Lima Moreira; “O Processo de Construção da Identidade e Mobilidade Religiosa nos Adolescentes e Jovens”, de Maristela Velozo; e “Juventude, Identidade e Vivência Religiosa”, de Fernanda Maria Andrade.

Ao reunirmos esses pedaços do mosaico religioso da gente, surgem imediatamente as perguntas: Para onde caminham as religiosidades e religiões? Quais os contornos do desenho formado por esses cacos? Em tempos de modernidade globalizada, com grandes possibilidades tecnológicas e enormes dificuldades de relações entre grupos culturais humanos e destes com a natureza, as pessoas tendem a ficar mais egoístas, no sentido de ouvir mais a própria intuição. Paradoxalmente, isso leva à busca por uma espiritualidade maior e uma melhor compreensão do significado da vida, o que pode inclusive redefinir e ampliar os nossos limites éticos. É possível, assim, que todas as religiões e seus múltiplos grupos venham a convergir para uma espiritualidade ecológica e de nova consciência global, amplamente ecumênica. Mas será que não estamos sendo muito otimistas ou ingênuos?! Esse livro, que recolhe diversas faces das religiões pela história, certamente vai nos ajudar a discernir os caminhos da espiritualidade contemporânea.