quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

A CONCEPÇÃO CRISTÃ DE TEMPO FRENTE A SECULARIZAÇÃO


A concepção cristã da história é escatológica, uma história que possui um ponto de partida, um "alfa" e um fim (τέλος), objetivo, finalidade, um "ômega". 

E mesmo pensadores modernos no afã de se desvincular de qualquer lógica religiosa, acabaram elaborando uma filosofia da história na qual reconstroem a lógica religiosa negada numa versão secularizada. A exemplo de Max Weber que manteve uma convicção implícita, em sua concepção de desencantamento do mundo, de que a história evoluí em direção a um tipo de racionalismo que relega a religião e a metafísica ao domínio do irracional. Outro exemplo, pode ser visto na noção moderna de progresso, uma versão secularizada da doutrina da providência que descreve o governo divino no tocante aos rumos da história, e que numa noção de progresso, tem o homem que por meio da sua racionalidade conduz a humanidade níveis cada vez maiores de progresso. 
Desta forma, os modernos interpretaram como irracional e não-científico modos pensar que já se encontravam desenvolvidos, renegados a condição de irracionalidade, considerando impertinentes quaisquer problemas de natureza metafísica. Neste sentido, a ciência moderna não evoluiu, como os positivas pensaram, do irracional para o racional, mas ignorando qualquer transcendência. Com isso, os modernos trouxeram o transcende para o imanente, divinizando o homem, o mundo, e o que nele existe. Não seria isso um tipo de panteísmo? 
Até aqui, observa-se como, mesmo na modernidade, a humanidade não se desvincula de um modo escatológico de conceber a história, por meio de uma concepção escatológica da história em moldes secularizados. Mas agora, ao tomar conhecimento disso, pensadores propagam a extinção de qualquer forma escatológica de conceber a história. Algo que me leva a perguntar: por quais outras formas? Alguma que consiga nos dá a mesma noção de finalidade e sentido para existência humana? Ou propõem a demolição do que temos para ser substituído pelo nada, pelo vazio, pela ausência de sentido? Isto é racional? Talvez voltemos a andar em círculo como um cachorro atrás do próprio rabo? Há muitas coisas a se pensar, talvez vivamos num agora eterno? Ou num comamos e bebamos pois amanhã morreremos?

sábado, 24 de outubro de 2015

TEOLOGIA, HUMANA, DEMASIADAMENTE HUMANA

Analisando etimologicamente a palavra teologia, pode-se extrair algumas implicações interessantes.Teologia é uma palavra formado por dois termos gregos θεός (Theos) deus + λόγος (Logos) "palavra/discurso/fala/interpretação", ou seja, uma fala/discurso/interpretação sobre Deus (na tradição cristã) ou sobre os deuses (sentido original grego). Deste sentido original, temos o verbo grego θεολογειν "falar/discursar sobre os deuses". Daqui, já se pode extrair uma primeira conclusão: toda a teologia é uma fala/discurso/interpretação acerca dos deuses ou, no caso cristão, acerca de Deus. 
A teologia, sendo interpretação, ao falar sobre a(s) divindade(s), constrói uma concepção sobre a(s) divindade(s), uma forma humana de compreendê-la(s). Daqui, pode-se extrair uma segunda conclusão: toda teologia é uma antropologia, o modo como homens elaboram interpretações acerca dos seus deuses.
É, em razão deste caráter antropológico da teologia ou das teologias, que as concepções elaboradas acerca da(s) divindade(s) refletem ou projetam na(s) divindade(s) as características humanas dos elaboradores, porém de uma forma idealizada, a(s) divindade(s) são projeções dos seres humanos melhorados, aperfeiçoados (Ludwig Feuerbach).
Deixe-me esclarecer uma coisa, antes que apareça algum religioso, que por não compreender o que estou escrevendo, diga que eu sou um ateu que irá para o inferno. Para começo de conversa, eu não sou ateu, e depois, o que estou escrevendo aqui não tem nada haver com ateísmo. O que estou dizendo é que as concepções acerca de Deus (cristianismo) ou deuses (outras religiões) são interpretações humanas, porém não raramente são tomadas como se fossem o desenho fiel da divindade, uma anatomia da divindade. Estou dizendo que as religiões elaboram concepções/interpretações acerca de suas divindades, inclusive, a religião cristã, e que estas interpretações são humanas, demasiadamente humanas. Ao dizer que em essência toda teologia é uma antropologia, estou dizendo que os discursos teológicos acerca das divindades são expressões da essência humana.
Se tomarmos como exemplo as três grandes religiões monoteístas (Judaísmo, cristianismo e islamismo), verificamos que são religiões com certo parentesco entre si e produtos dos seus contextos históricos e culturais. 
O judaísmo fez de Iahweh, uma divindade tribal em meio ao panteão de outras divindades, um deus sem forma (aniconismo: proibição de culto através de imagens) e inefável. É possível traçar uma genealogia deste conceito de Deus. Primeiro, Iahweh é uma divindade dentre tantas outras num contexto de adoração politeísta, há descobertas arqueológicas de imagens esculpidas de Iahweh ao lado de sua esposa, a deusa Asherah. Segundo, Iahweh é elevado a posição de divindade suprema acima de todas as outras (Henoteísmo), a existência das outras divindades continua sendo reconhecida, porém a adoração a elas passa a ser proibida, institui-se a monolatria. Terceiro, o próximo passo é considerar as outras divindades como ídolos feitos por mãos humanas, sendo Iahweh o único deus, monoteísmo. 
Por sua vez, o cristianismo na sua elaboração da concepção de Deus triúno, se apropria da concepção judaica acerca da sua divindade (Iahweh), fazendo desta divindade Deus-Pai, combinada a Jesus, Deus-Filho, e ao Deus-Espirito Santo. Sim, não esqueçamos que o cristianismo é originalmente uma seita judaica.
E por fim, o Islam. Sabe-se que Maomé que era comerciante, em suas viagens comerciais, teve contato com indivíduos praticantes do judaísmo e com grupos cristãos que não criam na Trindade, cristãos unicistas. Estes são fatores que contribuíram para uma concepção de Alá como uma divindade unitária. Esta concepção de divindade está clara no credo monoteísta islâmico: Alá é o único Deus e Maomé o seu profeta.
Para que nenhum crente diga novamente que eu irei para o inferno, retomo o conceito de Rudolf Otto de que o Sagrado/Numinoso é Totalmente O Outro, é racionalmente incompreensível, em razão disto não há discurso teológico que possa contê-lo. E concluo com Wittgenstein: "diante do absoluto nós nos calamos".

segunda-feira, 8 de junho de 2015

LIVRO "CORPO E ALMA: E SUA RELAÇÃO NA BÍBLIA HEBRAICA

APRESENTAÇÃO
"O livro de Alexandre de Jesus dos Prazeres, “Corpo e alma e sua relação na Bíblia Hebraica” é o resultado de uma pesquisa minuciosa realizada pelo autor. Embora tendo como foco a Bíblia Hebraica, a pesquisa abrange diversos campos do saber. O primeiro deles é o filosófico e isso é importante, porque os conceitos de corpo e alma sempre estiveram presentes na Filosofia, desde seus inícios na Grécia Antiga, até os mais atuais propósitos da Filosofia da Mente. Do campo filosófico, o autor vai para o campo teológico, presença obrigatória em uma pesquisa que se pretende ancorada na Bíblia Hebraica. O conceito de Bíblia Hebraica nem sempre é conhecido: significa todos os livros da Bíblia escritos em hebraico mais um grupo restrito de escritos em aramaico. Essa é a Bíblia da comunidade judaica e é o Antigo Testamento das igrejas provenientes da Reforma Protestante. O autor continua sua pesquisa por esse conjunto variadíssimo de escritos, identificando como os termos hebraicos referentes a alma e a corpo aparecem nesses escritos. Esses termos, de um modo geral, intencionam o ser humano todo, visto como corpo ou como alma, mas nunca um ser humano dividido em corpo e alma. Na última parte da pesquisa, o autor traz suas descobertas para os dias de hoje e tenta dialogar com a cultura atual que caracteriza como uma “cultura somática”, porque supervaloriza o corpo. A leitura desse livro certamente vai contribuir para uma visão mais integral do ser humano e a uma vivência mais sadia consigo mesmo, corpo e alma."

Cláudio Vianney Malzoni

Doutor em Ciências Bíblicas - École Biblique et Archéologique Française de Jérusalem, professor da graduação em Teologia e do Mestrado em Ciências da Religião da Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP.

DA CAPA DO LIVRO
"A obra que tem por título duas palavras em hebraico -“NÉFESH E BASAR”, alma e corpo - é um convite à compreensão do sentido dado ao corpo em nossa sociedade. O autor, Alexandre de Jesus dos Prazeres, depois de um detalhado estudo do sentido das palavras NÉFESH E BASAR na Bíblia Hebraica, apresenta algumas implicações do sentido destas palavras para a cultura somática de nossos dias.  
Considerando que a cultura do corpo nunca esteve tão em evidência na história da humanidade quanto na atualidade, o diálogo que esta obra estabelece com a tradição judaico-cristã sobre a relação entre corpo-alma, aponta para a necessidade de superação da dicotomia entre corpo e alma tão presente na história ocidental. 
Ao afirmar que “a concepção hebraica da pessoa humana é abrangente e por não reconhecer separação entre corpo e alma, contribui para a superação das consequências da dicotomia grega, e para uma valorização da corporalidade humana, e consequentemente para uma compreensão do ser humano em sua completude, em sua integralidade” (p.67); Alexandre abre caminho para compreensão e superação da sujeição e escravidão à qual os corpos tem sido relegados na sociedade de consumo.
Caro leitor, na leitura desta obra você está convidado a mergulhar num universo de sentido da compreensão de corpo e alma que ilumina e orienta a relação que estabelecemos com nossos próprios corpos e com os corpos de nossos semelhantes. Uma relação equilibrada entre corpo e mente, que está na raiz da saúde e felicidade tão almejada pelo ser humano de nosso tempo, somente será possível onde o corpo é compreendido como o elemento que liga o ser humano a si mesmo, a Deus, ao cosmo e aos outros seres humanos."
Flávio Schmitt
Doutor em Ciências da Religião, professor da Faculdades EST em São Leopoldo-RS, em nível de graduação e pós-graduação na área de Bíblia.

DA ORELHA DO LIVRO
"Este é um trabalho exegético, com implicações hermenêuticas bem fundamentadas, a partir da pesquisa bíblica atual. Contribui para uma melhor compreensão sobre um tema de suma importância para a Antropologia Teológica cristã: a relação entre corpo e alma.
O tema, que marcou profundamente, e de muitos modos, a compreensão do ser humano sobre si mesmo ao longo da história, está apresentado aqui em três capítulos bem articulados. O primeiro trata da relação corpo e alma numa perspectiva histórica, com o intuito de se considerar o estado da questão na Religião e na Filosofia. O segundo capítulo apresenta a relação corpo e alma na perspectiva da atual exegese bíblica, para se compreender de forma adequada a contribuição da Bíblia para a Antropologia Teológica cristã, a partir da noção semítica sobre o ser humano. O último capítulo nos apresenta as implicações desse estudo para uma abordagem crítica sobre a cultura corporal da atualidade, que supervaloriza uma dimensão humana (o corpo), menosprezando-se ou até desconsiderando-se as demais.
De um modo geral, o texto é permeado por uma crítica, muito bem formulada à “cultura somática” dos nossos dias (considerados como “tempos líquidos” pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman), em que valores começam a simplesmente evaporar-se diante dos nossos olhos, enquanto outros são superdimensionados.
O estilo redacional é compreensível, com alguns rebuscamentos que não atrapalham a compreensão, mas denotam a erudicidade do ator. A fundamentação teórica está apoiada numa bibliografia bem escolhida e atualizada, no campo da Exegese bíblica, da Filosofia, da Teologia, da Sociologia e, sobretudo, dos autores mais visitados no campo epistemológico em Ciências da Religião.
Recomendo, portanto, a estudantes, professores e pesquisadores, uma leitura atenta deste importante trabalho de Alexandre de Jesus dos Prazeres."


João Luiz Correia Júnior
Doutor em Teologia (concentração na área dos Estudos Bíblicos). Pós-doutor em Ciências da Religião. Professor Pesquisador da Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP.

PEDIDOS
Efetuar o depósito do valor do livro mais frete (R$ 30,00 + R$ 7,00) em Bradesco, agência 2628-0, Poupança 13751-0 e enviar o comprovante e o endereço para entrega do livro para o e-mail: alexandrespn@gmail.com

sábado, 2 de maio de 2015

REVISTA PARALELLUS: DOSSIÊ RELIGIÃO E LITERATURA

DOSSIÊ RELIGIÃO E LITERATURA

A revista Paralellus tem o prazer em disponibilizar aos seus leitores o seu mais novo número – “Religião e Literatura”. Além das seções já conhecidas pelo público leitor, Dossiê e Temática Livre, compartilhamos nesse número a seção Comunicação, com o trabalho A sombra do Padre Cícero..., do prof. Gilbraz Aragão.

APRESENTAÇÃO

Luiz Cláudio Barroca da Silva
p. 157-160

DOSSIÊ (artigos)

Iuri Andréas Reblin
p. 161-178
Emmanuel Ramalho de Sá Rocha
p. 179-190
Antonio Geraldo Cantarela
p. 191-206
Hideide Brito Torres
p. 207-222
Idelbrando Alves de Lima
p. 223-232
Joe Marçal G Santos
p. 233-250
Francisco Augusto Lima Paes, Josias da Costa Júnior
p. 251-266
Alexandre de Jesus dos Prazeres
PDF
p. 267-284
Jenny Gregoria González Muñoz
p. 285-298

TEMÁTICA LIVRE (artigos)

Cristiano Santos Araujo
p. 299-312
Lenise Glaucia de Souza Moraes
p. 313-328
Victor Breno Farias Barrozo
p. 329-342

COMUNICAÇÕES

Gilbraz de Souza Aragão
p. 343-360
FONTE: http://www.unicap.br/ojs//////////index.php/paralellus/issue/view/39

domingo, 25 de janeiro de 2015

LIBERDADE DE EXPRESSÃO, TERRORISMO E RELIGIÃO


Acima desta imagem que pode se constituir em ofensa a cristãos devido ao modo como representa a Santíssima Trindade, imagem de autoria dos caricaturistas do Jornal Charlie Hebdo, encontrei uma interpretação dos atos de terrorismo ocorridos na França, realizada por um pastor amigo meu que não pude deixar de refletir a respeito. Evito citar o seu nome pela consideração e estima que tenho por ele, mas não pude deixar de citar o ocorrido. Caso ele leia o meu texto, espero que possa me compreender.
A interpretação foi a seguinte: "É isso que o mundo está fazendo com o sagrado. Então que receba o pagamento por atos anticristos e blasfemos. DEUS, não Alá, mas o de ISRAEL e dos CRISTÃOS há de tomar vingança por blasfêmia. E o jogo do Islão está sendo uma forma."
Estou chamando estas palavras de interpretação com a intenção de caracterizá-las como opiniões de quem as escreveu, como uma leitura ou interpretação dos acontecimentos, ou como uma crença subjetiva que pode até ser compartilhada por outras pessoas, mas que por tratar-se de uma opinião, interpretação, crença, não pode obrigar ninguém a crer que seja de fato esta a expressão da verdade sobre a vontade de Deus. Em razão disto, possibilita opinar, interpretar e crer de um modo diferente, sem se sentir como alguém que desobedece a Deus por isto.
Digo isto para trazer opiniões humanas ao seu devido lugar, despindo-as de sua roupagem de pretensa iluminação ou revelação da vontade divina, para que possamos concordar ou discordar delas como são, opiniões, interpretações ou crenças que podem ou não ser compartilhadas sem peso na consciência.
Já voltando aos últimos acontecimentos na França, concordo que muitas das caricaturas do Jornal Charlie Hebdo ridicularizam e ofendem as crenças religiosas das pessoas, constituindo-se, por isso, agressões e atos de violência contra a fé. Mas também sou da opinião de que não é o caminho melhor a ser trilhado combater tais agressões com outras maiores ainda, atentando contra a vida como esses terrorista fizeram. Defendo a liberdade de expressão dos jornalistas do Charlie Hebdo, mas que também assumam as consequências pelo que venham a expressar, consequências oriundas das leis e dos tribunais de países livres com cidadãos que vivem num estado democrático, pessoas que se comportam como gente de bem, conscientes de que o estado existe para mediar conflitos e discórdias desta natureza, não sendo preciso recorrer as armas. 
É inegável que os cartunistas da Charlie Hebdo pegaram em merda, como se diz por aqui, com suas constante ofensas contra cristãos e muçulmanos, abusaram do direito de expressar opiniões, ferindo o direito dos outros, dos que exigem respeito as suas crenças religiosas. Por exemplo, as caricaturas de Maomé ou como esta que exponha aqui, retratando a Santíssima Trindade, são atos de violência contra cristãos e muçulmanos tão chocantes quanto foi para os católicos brasileiros assistirem um pastor evangélico chutando a imagem de N.S. Aparecida.

QUEM É DEUS MESMO?

Embora eu consiga compreender o percurso intelectual que conduz alguns líderes religiosos do teísmo á escolha do ateísmo como crença, considero o agnosticismo uma postura mais honesta, pelo reconhecimento de que não há provas cabais tanto da existência de Deus quanto da sua inexistência, fazendo com que o agnóstico se permita reconhecer que não há como bater o martelo numa questão ou noutra, tendo direito de admitir que possui dúvidas de que Deus exista ou não. Porém apesar de possuir as mesmas dúvidas que os agnósticos possuem, eu escolho ainda acreditar na existência de Deus, embora saiba que o "deus" trinitário da tradição ortodoxa cristã ou os outros "deuses" de outras tradições religiosas sejam tentativas de compreendê-lo, interpretações, elaborações racionais, esforços humanos para explicá-lo, que no fim das contas deixa ainda pairando no ar a pergunta: quem é Deus mesmo? O que me faz admitir que não tenho como saber quem ele é de fato, embora tenha escolhido adorá-lo por meio da imagem ideológica elaborada pela tradição cristã, mas hoje tendo a mente aberta ao entendimento de que tal imagem não esgota tudo sobre ele, havendo possibilidades para que imagens ideológicas dele sejam construídas por outras tradições religiosas. Todas estas imagens ideológicas de Deus igualmente limitadas, porém todas captando algo da sua realidade, todas refletindo alguma luz, pois religião é sempre humana, uma tentativa de traduzir uma experiência inefável em palavras, de explicar o inexplicável. No fim, somos todos idolatras, adorando imagens humanamente elaboradas de um Deus parcialmente conhecido.

PROTESTANTISMO E SECULARIZAÇÃO


Vez ou outra recebo mensagens por e-mail e, agora, por whatsapp sobre a questão da identidade de gênero, ou seja, que o sexo (masculino ou feminino) não é uma questão biológica, mas algo socialmente construído.

Em outras palavras, trata-se do velho problema entre "natureza e cultura" aplicado ao tema da sexualidade. Deixe-me formular melhor este problema, "até que ponto a nossa sexualidade é determinada por fatores biológicos (natureza) e até que ponto é determinada por fatores sociais ou culturais? 
Não pretendo oferecer resposta para questão aqui, mas chamar atenção para outro assunto. As mensagens que recebo são oriundas de pessoas que pertencem a igrejas evangélicas com um perfil conservador, em outras palavras, pessoas pertencentes ao protestantismo. 
Ou seja, hoje, os protestantes conservadores estão esperneando por causa destas coisas, mas está é a semente plantada na Reforma que está frutificando, trata-se de seu efeito colateral, a secularização, pois o discurso protestante ajudou a promover o desencantamento do mundo, elegendo a consciência e a razão do indivíduo como parâmetros para medir a vida, instaurando o individualismo e o racionalismo. Agora o mundo é pensado em termos de imanência, sem referência a algo que transcenda esta existência humana. Moral e ética são construídas socialmente sob critérios imanentes, e os protestantes, conscientes ou não, contribuiram para isto. 
O problema é que grande parte dos protestantes brasileiros não gostam de pensar, nem mesmo sobre as implicações filosóficas produzidas pela Reforma, os seus efeitos colaterais, a sua relação com a Modernidade, o impacto disto sobre temas como moral, ética, e liberdade.