domingo, 25 de janeiro de 2015

LIBERDADE DE EXPRESSÃO, TERRORISMO E RELIGIÃO


Acima desta imagem que pode se constituir em ofensa a cristãos devido ao modo como representa a Santíssima Trindade, imagem de autoria dos caricaturistas do Jornal Charlie Hebdo, encontrei uma interpretação dos atos de terrorismo ocorridos na França, realizada por um pastor amigo meu que não pude deixar de refletir a respeito. Evito citar o seu nome pela consideração e estima que tenho por ele, mas não pude deixar de citar o ocorrido. Caso ele leia o meu texto, espero que possa me compreender.
A interpretação foi a seguinte: "É isso que o mundo está fazendo com o sagrado. Então que receba o pagamento por atos anticristos e blasfemos. DEUS, não Alá, mas o de ISRAEL e dos CRISTÃOS há de tomar vingança por blasfêmia. E o jogo do Islão está sendo uma forma."
Estou chamando estas palavras de interpretação com a intenção de caracterizá-las como opiniões de quem as escreveu, como uma leitura ou interpretação dos acontecimentos, ou como uma crença subjetiva que pode até ser compartilhada por outras pessoas, mas que por tratar-se de uma opinião, interpretação, crença, não pode obrigar ninguém a crer que seja de fato esta a expressão da verdade sobre a vontade de Deus. Em razão disto, possibilita opinar, interpretar e crer de um modo diferente, sem se sentir como alguém que desobedece a Deus por isto.
Digo isto para trazer opiniões humanas ao seu devido lugar, despindo-as de sua roupagem de pretensa iluminação ou revelação da vontade divina, para que possamos concordar ou discordar delas como são, opiniões, interpretações ou crenças que podem ou não ser compartilhadas sem peso na consciência.
Já voltando aos últimos acontecimentos na França, concordo que muitas das caricaturas do Jornal Charlie Hebdo ridicularizam e ofendem as crenças religiosas das pessoas, constituindo-se, por isso, agressões e atos de violência contra a fé. Mas também sou da opinião de que não é o caminho melhor a ser trilhado combater tais agressões com outras maiores ainda, atentando contra a vida como esses terrorista fizeram. Defendo a liberdade de expressão dos jornalistas do Charlie Hebdo, mas que também assumam as consequências pelo que venham a expressar, consequências oriundas das leis e dos tribunais de países livres com cidadãos que vivem num estado democrático, pessoas que se comportam como gente de bem, conscientes de que o estado existe para mediar conflitos e discórdias desta natureza, não sendo preciso recorrer as armas. 
É inegável que os cartunistas da Charlie Hebdo pegaram em merda, como se diz por aqui, com suas constante ofensas contra cristãos e muçulmanos, abusaram do direito de expressar opiniões, ferindo o direito dos outros, dos que exigem respeito as suas crenças religiosas. Por exemplo, as caricaturas de Maomé ou como esta que exponha aqui, retratando a Santíssima Trindade, são atos de violência contra cristãos e muçulmanos tão chocantes quanto foi para os católicos brasileiros assistirem um pastor evangélico chutando a imagem de N.S. Aparecida.

QUEM É DEUS MESMO?

Embora eu consiga compreender o percurso intelectual que conduz alguns líderes religiosos do teísmo á escolha do ateísmo como crença, considero o agnosticismo uma postura mais honesta, pelo reconhecimento de que não há provas cabais tanto da existência de Deus quanto da sua inexistência, fazendo com que o agnóstico se permita reconhecer que não há como bater o martelo numa questão ou noutra, tendo direito de admitir que possui dúvidas de que Deus exista ou não. Porém apesar de possuir as mesmas dúvidas que os agnósticos possuem, eu escolho ainda acreditar na existência de Deus, embora saiba que o "deus" trinitário da tradição ortodoxa cristã ou os outros "deuses" de outras tradições religiosas sejam tentativas de compreendê-lo, interpretações, elaborações racionais, esforços humanos para explicá-lo, que no fim das contas deixa ainda pairando no ar a pergunta: quem é Deus mesmo? O que me faz admitir que não tenho como saber quem ele é de fato, embora tenha escolhido adorá-lo por meio da imagem ideológica elaborada pela tradição cristã, mas hoje tendo a mente aberta ao entendimento de que tal imagem não esgota tudo sobre ele, havendo possibilidades para que imagens ideológicas dele sejam construídas por outras tradições religiosas. Todas estas imagens ideológicas de Deus igualmente limitadas, porém todas captando algo da sua realidade, todas refletindo alguma luz, pois religião é sempre humana, uma tentativa de traduzir uma experiência inefável em palavras, de explicar o inexplicável. No fim, somos todos idolatras, adorando imagens humanamente elaboradas de um Deus parcialmente conhecido.

PROTESTANTISMO E SECULARIZAÇÃO


Vez ou outra recebo mensagens por e-mail e, agora, por whatsapp sobre a questão da identidade de gênero, ou seja, que o sexo (masculino ou feminino) não é uma questão biológica, mas algo socialmente construído.

Em outras palavras, trata-se do velho problema entre "natureza e cultura" aplicado ao tema da sexualidade. Deixe-me formular melhor este problema, "até que ponto a nossa sexualidade é determinada por fatores biológicos (natureza) e até que ponto é determinada por fatores sociais ou culturais? 
Não pretendo oferecer resposta para questão aqui, mas chamar atenção para outro assunto. As mensagens que recebo são oriundas de pessoas que pertencem a igrejas evangélicas com um perfil conservador, em outras palavras, pessoas pertencentes ao protestantismo. 
Ou seja, hoje, os protestantes conservadores estão esperneando por causa destas coisas, mas está é a semente plantada na Reforma que está frutificando, trata-se de seu efeito colateral, a secularização, pois o discurso protestante ajudou a promover o desencantamento do mundo, elegendo a consciência e a razão do indivíduo como parâmetros para medir a vida, instaurando o individualismo e o racionalismo. Agora o mundo é pensado em termos de imanência, sem referência a algo que transcenda esta existência humana. Moral e ética são construídas socialmente sob critérios imanentes, e os protestantes, conscientes ou não, contribuiram para isto. 
O problema é que grande parte dos protestantes brasileiros não gostam de pensar, nem mesmo sobre as implicações filosóficas produzidas pela Reforma, os seus efeitos colaterais, a sua relação com a Modernidade, o impacto disto sobre temas como moral, ética, e liberdade.