sábado, 24 de outubro de 2015

TEOLOGIA, HUMANA, DEMASIADAMENTE HUMANA

Analisando etimologicamente a palavra teologia, pode-se extrair algumas implicações interessantes.Teologia é uma palavra formado por dois termos gregos θεός (Theos) deus + λόγος (Logos) "palavra/discurso/fala/interpretação", ou seja, uma fala/discurso/interpretação sobre Deus (na tradição cristã) ou sobre os deuses (sentido original grego). Deste sentido original, temos o verbo grego θεολογειν "falar/discursar sobre os deuses". Daqui, já se pode extrair uma primeira conclusão: toda a teologia é uma fala/discurso/interpretação acerca dos deuses ou, no caso cristão, acerca de Deus. 
A teologia, sendo interpretação, ao falar sobre a(s) divindade(s), constrói uma concepção sobre a(s) divindade(s), uma forma humana de compreendê-la(s). Daqui, pode-se extrair uma segunda conclusão: toda teologia é uma antropologia, o modo como homens elaboram interpretações acerca dos seus deuses.
É, em razão deste caráter antropológico da teologia ou das teologias, que as concepções elaboradas acerca da(s) divindade(s) refletem ou projetam na(s) divindade(s) as características humanas dos elaboradores, porém de uma forma idealizada, a(s) divindade(s) são projeções dos seres humanos melhorados, aperfeiçoados (Ludwig Feuerbach).
Deixe-me esclarecer uma coisa, antes que apareça algum religioso, que por não compreender o que estou escrevendo, diga que eu sou um ateu que irá para o inferno. Para começo de conversa, eu não sou ateu, e depois, o que estou escrevendo aqui não tem nada haver com ateísmo. O que estou dizendo é que as concepções acerca de Deus (cristianismo) ou deuses (outras religiões) são interpretações humanas, porém não raramente são tomadas como se fossem o desenho fiel da divindade, uma anatomia da divindade. Estou dizendo que as religiões elaboram concepções/interpretações acerca de suas divindades, inclusive, a religião cristã, e que estas interpretações são humanas, demasiadamente humanas. Ao dizer que em essência toda teologia é uma antropologia, estou dizendo que os discursos teológicos acerca das divindades são expressões da essência humana.
Se tomarmos como exemplo as três grandes religiões monoteístas (Judaísmo, cristianismo e islamismo), verificamos que são religiões com certo parentesco entre si e produtos dos seus contextos históricos e culturais. 
O judaísmo fez de Iahweh, uma divindade tribal em meio ao panteão de outras divindades, um deus sem forma (aniconismo: proibição de culto através de imagens) e inefável. É possível traçar uma genealogia deste conceito de Deus. Primeiro, Iahweh é uma divindade dentre tantas outras num contexto de adoração politeísta, há descobertas arqueológicas de imagens esculpidas de Iahweh ao lado de sua esposa, a deusa Asherah. Segundo, Iahweh é elevado a posição de divindade suprema acima de todas as outras (Henoteísmo), a existência das outras divindades continua sendo reconhecida, porém a adoração a elas passa a ser proibida, institui-se a monolatria. Terceiro, o próximo passo é considerar as outras divindades como ídolos feitos por mãos humanas, sendo Iahweh o único deus, monoteísmo. 
Por sua vez, o cristianismo na sua elaboração da concepção de Deus triúno, se apropria da concepção judaica acerca da sua divindade (Iahweh), fazendo desta divindade Deus-Pai, combinada a Jesus, Deus-Filho, e ao Deus-Espirito Santo. Sim, não esqueçamos que o cristianismo é originalmente uma seita judaica.
E por fim, o Islam. Sabe-se que Maomé que era comerciante, em suas viagens comerciais, teve contato com indivíduos praticantes do judaísmo e com grupos cristãos que não criam na Trindade, cristãos unicistas. Estes são fatores que contribuíram para uma concepção de Alá como uma divindade unitária. Esta concepção de divindade está clara no credo monoteísta islâmico: Alá é o único Deus e Maomé o seu profeta.
Para que nenhum crente diga novamente que eu irei para o inferno, retomo o conceito de Rudolf Otto de que o Sagrado/Numinoso é Totalmente O Outro, é racionalmente incompreensível, em razão disto não há discurso teológico que possa contê-lo. E concluo com Wittgenstein: "diante do absoluto nós nos calamos".