sexta-feira, 22 de julho de 2016

Estado Islâmico e o fundamentalismo: vanglória, loucura e afã pelo poder


Por estes dias, foi testemunhado, através do atentado em Nice-França, um ato de violência contra toda a civilização ocidental, pois é para realizar o objetivo de transformar toda a civilização do Ocidente num grande califado ou, caso isto não ocorra, aniquilá-la que o Estado Islâmico existe. Ainda por estes dias, depois e em decorrência do atentado na França, as emissoras de TV apresentaram várias reportagens avaliando o modo como o Estado Islâmico conquista seguidores no mundo inteiro através da internet. Isto ocorre de uma maneira tal que para alguém sentir-se aliado da causa do Estado Islâmico não é preciso ter vínculos diretos com este. Um pequeno gesto como queimar o passaporte e, em seguida, planejar e executar ataques contra multidões de desconhecidos no Ocidente une qualquer pessoa seja de onde for ao mesmo pacto de terror do Estado Islâmico.
Pensando nestas coisas, lembrei-me do livro “Leviatã” escrito por Thomas Hobbes em 1651. Segundo este, a natureza genérica da humanidade deve ser examinada em termos das paixões humanas:

As paixões que causam com maior intensidade as diferenças de talentos são, principalmente, o maior ou menor desejo de poder, de riquezas, de conhecimentos e de honrarias. Tudo isso pode ser resumido no afã de poder, pois as riquezas, o conhecimento e as honrarias são diferentes formas de poder (HOBBES, Thomas. Leviatã: ou matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. São Paulo: Martin Claret, 2012. p.65).

Uma vez que, em sentido de uma filosofia moral aristotélica e cristã, as ações da vida humana não são mais direcionadas com o propósito superior de alcançar o "summum bonum"; uma vez que indivíduos e sociedade não compartilham mais, em sentido aristotélico e cristão, de um "nous" comum; uma vez que o objetivo da sociedade e cada indivíduo nesta deixou de ser a busca pela semelhança com o "summum bonum", resta o desafio de construir uma ordem social feita por indivíduos isolados, que não estão orientados em direção a um propósito comum, mas motivados por suas paixões pessoais (VOEGELIN, Eric. A nova ciência da política. Brasília: UNB, 1982. p.129).
Porém, foram das seguintes palavras de Hobbes (2012, p.65) que me lembrei:

A paixão cuja violência ou continuidade produz a loucura é uma grande vanglória, que comumente é chamada de orgulho e autoestima ou depressão da mente. [...] A exagerada opinião que um homem tem de si mesmo, quando se sente dotado de inspiração divina, de sabedoria, de grande aprendizado, de bons modos, e coisas semelhantes, converte-se em irreflexão e pertubação mental. [...] A veemente opinião sobre a verdade de todas as coisas, contrariada pelos outros, transformar-se em raiva.

O orgulho ferido daquele que “se sente dotado de inspiração divina” ou do que possui “veemente opinião sobre a verdade de todas as coisas” transforma-se em ódio. Eis uma clara descrição do fundamentalismo, “sentir-se dotado de inspiração divina, possuidor de “veemente opinião sobre a verdade de todas as coisas”, em resumo, acreditar possuir uma verdade superior a todas as outras, o que Hobbes declara ser “pertubação da mente”, loucura. Esta loucura nada mais é do que “uma grande vanglória”, paixão desenfreada, “tudo isso pode ser resumido no afã pelo poder”. Por ser afã pelo poder, este tipo de paixão ou loucura não é uma enfermidade exclusiva do Estado Islâmico, mas de qualquer pessoa grupo ou movimento, político, religioso ou de qualquer outra natureza, que creia possuir uma verdade superior a todas, os religiosos acreditam ser dotados de inspiração divina, os demais, acreditam possuir uma opinião sobre a verdade de todas as coisas. Em outros termos, o fundamentalismo pode assumir formas tanto religiosas quanto laicas. O fundamentalismo do Estado Islâmico oculta o afã ou a paixão pelo poder na religião, paixão pelo poder de não ser mais contrariado, de submeter a todos “a sua veemente opinião sobre a verdade de todas as coisas”, o afã de possuir o poder de fazer do mundo inteiro um imenso califado. 

O preocupante é quando esta loucura, vanglória, orgulho contrariado, transforma-se em ódio, assumindo formas violentas como o desejo de impor esta loucura aos demais. Um louco oferece perigo menor do que uma multidão de loucos anônimos e espalhados pelo mundo, convencidos de são possuidores de inspiração divina.

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