segunda-feira, 31 de outubro de 2016

POR UMA ABORDAGEM CRÍTICA À REFORMA

Tenho visto um número imenso de líderes cristãos protestantes ensinando aos seus rebanhos um corpo de doutrinas como se a adesão a ele fosse determinante para a salvação dos seus rebanhos, utilizo salvação aqui em sentido literal, livramento da "danação" eterna, por mais arcaica que esta expressão seja. 
No entanto o cristianismo diz respeito a ser redimido por alguém e não pela teologia elaborada sobre esse alguém, e este alguém é Cristo, sim Cristo é o redentor. As teologias são tentativas humanas limitadas, condicionadas no tempo e no espaço, inacabadas, por isso passíveis de revisão, tentativas de formular um discurso articulado racionalmente sobre Deus, enquanto ser além da compreensão humana, pelo menos tem sido assim no ocidente cristão.
A elaboração de sistemas teológicos, porém, é fruto da necessidade da comunidade cristão que carece de alguma explicação sobre o Inefável para se sentir segura, para não se sentir desorientada, atordoada existencialmente, havendo sempre o risco de confundir o discurso sobre Deus com o próprio Deus, fazendo do discurso o redentor, como se a redenção fosse obtida a partir da adesão a um conjunto de conhecimentos, supostamente infalíveis, isto, em resumo, é um tipo de gnose. 
É desta forma que as leituras descontextualizadas da Reforma Protestante acabam por fazer dos reformadores, Lutero e Calvino, espirituais gnósticos, portadores de conhecimentos redentores, os seus textos são tomados como os documentos do novo cristianismo, como uma nova patrística. O que foi elaborado antes do século XVI não importa mais, apenas o cristianismo pós-reforma é o que importa, as coisas velhas passaram, eis que tudo se fez novo.
Este tipo de leitura da Reforma a interpreta sempre sob um prisma positivo, ocultando ou recusando-se a enxergar os danos causados pela Reforma à cristandade, dentre estes enfraquecer a autoridade institucional do cristianismo, contribuindo para a liberação de movimentos religiosos de perfil anti-institucionais e revolucionários, como por sinal são as igrejas da Reforma, ao questionar a autoridade papal, acabar por dilui-la em todos os cristãos, tornando cada cristão um Papa, sem esquecer como este enfraquecimento do cristianismo contribuiu para o fortalecimento da secularização no Ocidente.
Eric Voegelin (1901-1985), ao concluir a sua análise sobre os reformadores Lutero e Calvino, aponta o antifilosofismo de ambos, que fez com que um indivíduo com treino teológico como Lutero atacasse uma doutrina de justificação pelas obras que não existia ou nunca foi ensinada pela Igreja Católica e, no caso de Calvino, no modo como em suas Institutas, um tratado volumoso de teologia, ao discorrer sobre a doutrina da predestinação a deslocasse do seu lugar comum nos tratados teológicos (como parte da Teo-ontologia) para a experiência da fé, demonstrando aparentemente não compreender a "analogia entis" ou o antropomorfismo que envolvia a abordagem da predestinação (VOEGELIN, Eric. História das ideias políticas: renascença e reforma. São Paulo: É Realizações Editora, 2014. 4.v. p.337).  
São questões apontados por Voegelin, dentre outras, que são ignoradas. Diante destas coisas, estou convencido que uma abordagem mais crítica sobre a Reforma e os reformadores feita pelos próprios protestantes seria imensamente benéfico para estes, principalmente os que costumam ler a história da Reforma protestante como uma hagiografia. Esta é a minha singela contribuição as vésperas deste 31 de outubro.