domingo, 15 de janeiro de 2017

A tentação de Jesus no deserto


domingo, 8 de janeiro de 2017

Livro "A Origem de Javé"


MER, Thomas. A origem de Javé: o Deus de Israel e seu nome. São Paulo: Paulus, 2016.





Estava lendo o livro "A origem de Javé", escrito por Thomas Römer, publicado pela Paulus. O autor deixa bem claro que o seu objetivo de investigação é estritamente acadêmico:
"A Bíblia deve, então, ser analisada numa perspectiva histórica, sem a priori, como qualquer outro documento da Antiguidade. E, sobretudo, o resultado da análise dos textos bíblicos deve ser confrontado com os dados arqueológicos, epigráficos e iconográficos. É assim que chegaremos a traçar a carreira de um deus do deserto, venerado por grupos nômades, que se tornou o Deus de nome impronunciável de que nos fala a Bíblia hebraica" (RÖMER, 2016, p.14).
O livro faz parte de uma série de outros que na atualidade estão retomando pesquisas do final do século XIX e início do século XX cujo interesse era a origem do Deus de Israel e o processo de formação do monoteísmo. Esta retomada deve-se a disposição na atualidade de melhores recursos para a pesquisa oriundos de descobertas arqueológicas que enriqueceram a documentação sobre o assunto.
Isto me fez pensar como há muito tempo os clérigos não tem mais o monopólio sobre os textos bíblicos e nem suas igrejas tem mais a autoridade exclusiva para determinar como estes textos devem ser estudados e interpretados. Em razão disto, as reações por parte dos clérigos, desde o século XIX, sempre foram ferrenhas. Por exemplo, Rudolf Bultmann, estudioso do Novo Testamento do início do século XX, relata que recebia cartas de membros de igrejas, afirmando que ele iria para o inferno. Bultmann, em resposta as cartas, perguntava se já haviam lido algum dos seus livros. Estes declaravam que não, apenas teriam ouvido de seus pastores que Bultmann era um herege.
Este mesmo tipo de problema continua acontecendo na atualidade. Líderes eclesiásticos, não todos é claro, sim os mais fundamentalistas, continuam instruindo os seus rebanhos a não estudar certos autores, determinando a forma correta de abordar o texto sagrado, negando-se a dialogar com qualquer novo conhecimento sobre o assunto. Até acho compreensível, é uma forma encontrada de se proteger de influências externas pelo isolamento. E também é uma forma de interpretar qualquer abordagem ao texto sagrado que não seja estritamente religiosa como profanação deste texto. Isto também se deve ao caráter exclusivista que possuem sobre a sua fé, entendem-se como portadores do caminho, do fundamento para salvação, diante disso não admitiriam ser tratados como qualquer outro grupo religioso.
Tudo ficaria mais fácil, se todos (pesquisadores e clérigos) respeitassem o fato de que é possível diversas abordagens ao texto, todas elas incompletas e com pontos positivos e negativos, bem como orientadas por pressupostos e interesses diferentes.
No caso do livro em questão, fica clara a abordagem científica, sem pressupostos de fé, uma leitura crítica da Bíblia hebraica como se faria com qualquer documento da Antiguidade, confrontando o conteúdo da Bíblia hebraica com fontes externas, oriundas da arqueologia e da história. Trata-se de uma pesquisa sobre o "deus de Israel" que cobre cerca de um milênio, desde o fim do segundo milênio antes da era cristã até a época helenista. Inicia com o esclarecimento da questão do significado do nome da divindade de Israel, em torno do tetragrama YHWH. Este esclarecimento prossegue pela atestação desse nome fora da Bíblia e sua origem geográfica. Com o intuito de compreender como o monoteísmo foi inventado e de que maneira integrou as raízes politeístas cuja herança ainda conserva, o autor responde as seguintes questões:
"Mas como é que esse deus se torna o deus de 'Israel'? Quando ascendeu ele ao estatuto de deus protetor dos reinos de Israel e de Judá? Ele é, aí, venerado da mesma maneira? Como fez ele entrada no templo de Jerusalém? Estava aí só, ou coabitava com outras divindades? Era invisível desde o início, como afirmam os redatores bíblicos, ou existiam representações de Yhwh? Era 'celibatário'? Ao término de que processo e em reação a quais acontecimentos o culto monolátrico, que lhe foi progressivamente prestado, se impôs?" (RÖMER, 2016, p.31)
Esse tipo de pesquisa não pretende fortalecer e nem destruir a fé de ninguém, mas apenas buscar evidências para as hipóteses levantadas. Porém é claro que o acesso aos dados levantados provocará inquietações nos círculos religiosos e isto é inevitável.
É inevitável também que mais cedo ou mais tarde estes círculos eclesiásticos tenham que rever as suas teologias para poder responder as atuais questões que serão levantadas por novas informações que surgirão dia após outro.